Eleições de 2024 podem consolidar novo perfil da oposição no Ceará

Após anos encabeçada por Capitão Wagner, a oposição no Ceará se capilarizou com aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e agora ganha reforços de ex-governistas, como Ciro Gomes

Por Igor Cavalcante, igor.cavalcante@svm.com.br
PONTOPODER

Capitão Wagner, Ciro Gomes e Carmelo Neto compões alas diferentes da oposição no Ceará
Foto: Arquivo/SVM, Thiago Gadelha/Diário do Nordeste, Divulgação/Alece

Após anos de uma oposição encabeçada pelo ex-deputado Capitão Wagner (União Brasil) no Ceará, o racha do grupo governista, a partir das eleições de 2022, redefiniu também os papéis na oposição. Nomes como o do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e do ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (PDT), agora somam vozes com Wagner e com figuras que ascenderam na esteira do bolsonarismo, como o deputado federal André Fernandes e o estadual Carmelo Neto, nas críticas às lideranças que comandam ou exercem influência sobre o Estado.

O ministro da Educação, Camilo Santana (PT), o senador Cid Gomes (PSB) e o governador Elmano de Freitas (PT) viraram os alvos preferenciais também dos antigos aliados pedetistas, os mais recentes integrantes da oposição cearense. No equilíbrio de força partidária, esse redesenho fica explícito com o PT avançando em número de prefeituras no Estado, acumulando 45 municípios. O PSB, que abrigou o grupo dissidente do PDT e virou aliado de primeira ordem do PT, soma 64 mandatários.

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O PDT, até o ano passado no posto de maior sigla do Estado, perdeu mais da metade das gestões municipais desde que rompeu com o PT no Ceará, totalizando atualmente 14. Um dos efeitos dessa desidratação é a subida de tom de Ciro Gomes, que traçou como alvo principal de seus ataques o ministro da Educação Camilo Santana (PT) e agora disputa espaço entre os oposicionistas. 

No último sábado (23), em Juazeiro do Norte, no Cariri, o pedetista deu uma demonstração de seu novo perfil ao se aliar com  o atual prefeito do município, Glêdson Bezerra (Podemos), eleito em 2020 como opositor ao candidato apoiado por Camilo e pelos irmãos Ferreira Gomes.


Glêdson Bezerra ao lado de Ciro e Roberto Cláudio. Foto: Reprodução/Instagram

A disputa entre pedetistas e petistas se estende ainda por outros municípios estratégicos, como Fortaleza, Maracanaú e Caucaia, onde forças ligadas a Wagner também exercem forte influência e embaralham a disputa eleitoral a menos de sete meses do pleito.

“A principal diferença entre essas oposições é que a do Wagner é programática, mas também personalista, porque ele se constituiu como oposição ao Governo Cid Gomes, ao grupo dos Ferreira Gomes, foi assim que o Wagner foi ganhando notoriedade, ao passo que a oposição agora do Ciro pode ser vista como pragmática. Ela advém dos rompimentos da eleição de 2022, da candidatura do Roberto Cláudio e do escanteamento da Izoda Cela”, analisa Emanuel Freitas, professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

FRATURA EXPOSTA

No último fim de semana, Ciro disparou críticas tendo como alvo Camilo — que segue em silêncio sobre as acusações. “Aqui no Juazeiro do Norte eu vou fazer o que estiver ao meu alcance para inibir uma injustiça selvagem muito pior do que o pior dos coronéis em qualquer época da história do Ceará que o Camilo Santana está fazendo com o prefeito de Juazeiro, ele não quer que o prefeito de Juazeiro tenha direito de participar”, disse o pedetista.

O ex-ministro ainda acusou o petista de promover “roubalheira” no Estado e de fazer tráfico de influência, declarações que foram amplamente compartilhadas por nomes bolsonaristas no Ceará, entre eles Carmelo Neto (PL) e André Fernandes (PL). A dupla agora encontra um cenário mais difícil com a derrota do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas últimas eleições e integra a oposição também à nível nacional.
Já Ciro luta para recuperar sua força política no Estado após amargar o terceiro lugar nas urnas cearenses ao disputar a Presidência da República em 2022. Além desse revés, um indicado dele ao Governo do Estado, Roberto Cláudio, saiu derrotado no pleito daquele ano, ficando também em terceiro lugar. 

Para analistas políticos ouvidos pelo Diário do Nordeste, mesmo não colocando seu nome nas urnas neste ano, Ciro terá a liderança posta à prova em meio à manobra para se voltar contra antigos aliados e ganhar protagonismo na oposição. Já Capitão Wagner apostará na lembrança do eleitorado após duas disputas pela prefeitura da Capital e uma para o Governo do Estado, em 2022, quando ele foi o candidato mais votado em Fortaleza.

CONCORRÊNCIA NA OPOSIÇÃO

De acordo com a professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres, mesmo com os irmãos Ciro e Cid Gomes rompidos, em partidos diferentes e com um na oposição e outro na base, a trajetória política de Capitão Wagner como antagonista dos Ferreira Gomes está consolidada e o fortalece como nome na oposição. 

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“Ele construiu toda uma trajetória política se colocando ou sendo antagonista dos Ferreira Gomes, é algo que ele já consolidou. Agora, do ponto de vista das disputas de 2024 e daqueles nomes que estão tentando se reposicionar e ganhar espaços, o Wagner tem grande chance, não só porque se expressa muito claramente (como oposição) e tem esse recall na cabeça do eleitor, mas porque ele não se caracteriza só por isso, ele agrega um dos pontos de maior preocupação do eleitor, que é a questão da violência urbana”, aponta.

A cientista política relembra ainda que, no pleito de 2020, Wagner chegou ao segundo turno e perdeu para o atual prefeito de Fortaleza, José Sarto (PDT), por uma pequena diferença proporcional de votos.

“Esse racha entre Ciro, Cid e o grupo mais ligado ao Camilo pode beneficiá-lo porque vai dividir o pool de eleitores. (Por outro lado), não se sabe se esse eleitorado mais à esquerda, que, historicamente, vota no Camilo e no PT estaria disposto, por exemplo, a acompanhar o Wagner no caso de um segundo turno entre o candidato apoiado pelo Ciro contra o Wagner”
MONALISA TORRES
Professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece)

ESTRATÉGIA ELEITORAL

Seja qual for o cenário, com a chegada de novos nomes na oposição exigirá que figuras como Wagner, Carmelo e Fernandes tracem novas estratégias para garantir a manutenção e ampliação do eleitorado. A avaliação é da professora de graduação e pós-graduação em Direito da Unifor e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mariana Dionísio de Andrade.

“Se essa oposição conservadora, hoje liderada numericamente por Capitão Wagner, permanecer utilizando pautas identitárias e de costumes, afastando-se de problemas reais, perderá espaço por falta de renovação. Se o PDT continuar levantando bandeiras mais austeras na tentativa de atingir a coesão entre os membros, sem consolidar o discurso social, também tende a sofrer impacto nas próximas eleições”, ressalta.

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Atualmente, na ala da oposição no Ceará, além de Sarto, que irá disputar a reeleição, há ainda as pré-candidaturas de Capitão Wagner, pelo União Brasil, e André Fernandes, pelo PL. O partido Novo também promete lançar para o pleito o senador Eduardo Girão.

O União Brasil e o PL podem se fortalecer na disputa pela ampla bancada na Câmara dos Deputado, o que garante aos candidatos maior possibilidade de recursos de financiamento eleitoral, além de tempo de propaganda gratuita no rádio e na televisão.

“É mais fácil fazer oposição a um grupo fragmentado, que era o caso do próprio PDT, mas na oposição ao PT o cenário se complica, porque, atualmente, é uma sigla muito mais organizada em termos de alcance e de escolha de nomes estratégicos. Assim, os bolsonaristas radicais e à direita conservadora terão de modular o discurso para que mantenham a simpatia dos apoiadores e conquistem os decepcionados com a gestão política atual”
MARIANA DIONÍSIO DE ANDRADE
Professora de graduação e pós-graduação em Direito da Unifor e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

Para Monalisa Torres, outro desafio para a oposição é conseguir fragilizar a imagem de Camilo Santana, principal liderança governista do Ceará atualmente, alvo principalmente de Ciro Gomes. “O Camilo tem se consolidado como uma figura de proa do grupo político e tem um capital político considerável. Ele saiu do governo muito popular (..) e hoje está no Ministério, que é uma vitrine política super forte”, argumenta Torres.

No último fim de semana, as declarações de Ciro mirando o ministro atingiram um pico de recrudescimento, reforçando as acusações que ele havia feito em meados da semana passada de que Camilo e Cid Gomes, seu irmão, estão “desmontado” e “destruindo” o trabalho feito por ele e por Tasso Jereissati (PSDB).

Para o professor Emanuel Freitas, a postura do pedetista é também uma aposta de salvação política após o resultado das urnas em 2022. 

“A situação dele ficou difícil porque sobrou para o grupo que ele tenta liderar apenas a Prefeitura de Fortaleza, que não está tão bem avaliada e enfrenta incertezas sobre a reeleição do prefeito, então o Ciro precisa se colocar no jogo estadual para manter a liderança e o que resta possível é fazer oposição ao grupo que está no poder, onde ele não conseguiu se manter”, afirma.

CIRO COMO OPOSITOR

Freitas ressalta ainda que o movimento de Ciro não é inédito na política cearense.

“Essa oposição do Ciro é uma oposição de parte dos Ferreira Gomes aos próprios Ferreira Gomes, então é mais uma defecção governista do que uma oposição propriamente dita, e isso acompanha a história do Ceará. O próprio Juraci Magalhães, que foi eleito vice-prefeito e rompe com o Ciro, foi uma defecção. Em 2002, as candidaturas do Wellington Landim e do Sérgio Machado também foram defecções governistas; em 2014, teve o Eunício Oliveira”
EMANUEL FREITAS
Professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece)

Monalisa Torres acrescenta que na própria história política do ex-ministro esses realinhamentos já ocorreram. “Em 2006, quando o Cid saiu candidato ao Governo, o Ciro vinha de uma trajetória política sendo construída ainda muito a esteira da aliança com o ex-governador Tasso Jereissati. Em 2006, ele (Ciro) caminha para a oposição e faz essa virada de chave”, analisa. 

Por outro lado, a pesquisadora pondera que, nesses movimentos, Ciro faz críticas direcionadas a nomes e poupa parte do legado político que ele próprio ajudou a construir. 
 
“Naquela época, ele era muito ligado ao ‘tassismo’, então não criticava esse legado, eram críticas pontuais a quem estava conduzindo o legado na época: o Lúcio Alcântara. Guardadas as devidas particularidades, o movimento é muito semelhante agora. Ele vinha dentro do grupo fazendo esse legado dos Ferreira Gomes, o Camilo assume, dá continuidade ao projeto, ocorre o rompimento em 2022 e ele faz essa virada (...) Então ele passa a criticar não o legado propriamente, porque ele faz parte disso, mas mira as críticas naquele que hoje é entendido como o que conduziu, o Camilo” 
MONALISA TORRES
Professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece)

Uma das declarações em que isso ficou evidente ocorreu também no sábado, em Juazeiro. Ao comentar sobre segurança pública, Ciro poupou a gestão de seu irmão  — e hoje adversário político, Cid Gomes — e direcionou o ataque a Camilo.

“Quem ouvia falar de facção criminosa em governos como o nosso, em que tínhamos autoridade? Quem está com medo agora se lembre quando começou essa história de facção mandar na periferia, aterrorizar o povo no Ceará, na Capital, no Interior, em todo canto. Foi de cinco, seis, sete anos para cá”, disse Ciro.

Na análise de Mariana Dionísio, o embate entre Ciro e Camilo já se desenhava para o pleito deste ano.

“Camilo coordena uma das pastas mais estratégicas no governo, e justamente em uma categoria cujo envolvimento de Ciro Gomes é histórico. Então, naturalmente, já se esperava algum embate de ideias. No entanto, a questão agora tem mais a ver com a hegemonia política de Camilo no Ceará, especialmente no que diz respeito às escolhas políticas do PT para as próximas eleições (...) Mesmo assim, ainda que longe do páreo para as próximas candidaturas, Ciro Gomes possui uma capacidade de articulação que não se pode desprezar” 
MARIANA DIONÍSIO DE ANDRADE
Professora de graduação e pós-graduação em Direito da Unifor e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

A assessoria de imprensa do ministro Camilo Santana foi procurada pela reportagem, que aguarda retorno.

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