Exclusivo: Coronel com alto cargo no governo Bolsonaro empresta conta banc谩ria a Fabr铆cio Queiroz, mostra documento
Um coronel da reserva do Ex茅rcito indicado assessor da presid锚ncia da Casa da Moeda do Brasil pelos generais do governo Bolsonaro cultiva h谩 duas d茅cadas uma rela莽茫o de confian莽a m煤tua com Fabr铆cio Queiroz. Ele mesmo, o acusado de operar o esquema milion谩rio das rachadinhas do filho 01, o senador Fl谩vio Bolsonaro, do PL do Rio.
O coronel Washington Luiz Lima Teixeira 茅 o primeiro elo claro entre um militar com cargo no alto escal茫o do governo Bolsonaro com Queiroz, homem-bomba do cl茫 presidencial. As rela莽玫es entre os dois incluem a venda de um im贸vel e uma procura莽茫o em que o coronel Teixeira deu a Queiroz “amplos poderes” para operar suas contas banc谩rias pessoais na Caixa.
Gra莽as ao apoio do que chamou, em entrevista ao Intercept, de “um grupo seleto [de oficiais] dentro da for莽a”, Teixeira, 61 anos, 茅 assessor da presid锚ncia da Casa da Moeda desde novembro de 2020. Ali, ganha sal谩rio bruto de R$ 22 mil mensais. Ele diz ter sido escolhido diretamente pelo presidente da empresa e vice-almirante da reserva da Marinha, Hugo Cavalcante Nogueira.
As liga莽玫es do coronel Teixeira com Queiroz est茫o documentadas em cart贸rios do Rio de Janeiro. Ao longo das 煤ltimas seis semanas, pedimos c贸pias e analisamos 15 documentos. O mais intrigante deles 茅 a procura莽茫o assinada em dezembro de 2009 pelo ent茫o coronel da ativa do Ex茅rcito dando ao ent茫o assessor de Fl谩vio Bolsonaro “amplos poderes” para operar suas contas banc谩rias pessoais. Ela segue v谩lida, a julgar pela aus锚ncia de registros de seu cancelamento.
O documento est谩 registrado no 8潞 Of铆cio de Notas, Centro do Rio, e torna oficial que o coronel Teixeira e sua mulher, Ana Maria de Medeiros Teixeira, nomearam Queiroz como procurador de ambos “junto e perante a Caixa, em quaisquer de suas ag锚ncias e departamentos”.
O acordo d谩 a Queiroz poder para “acompanhar e dar andamento a processo habitacional, podendo abrir, movimentar e liquidar contas, tomar ci锚ncia dos despachos, cumprir exig锚ncias, juntar e retirar documentos, requerer, recorrer, concordar e ajustar condi莽玫es do m煤tuo, pagar taxas de servi莽os, assinar os contratos necess谩rios, ajustar pre莽os, prometer comprar, comprar”.
O documento confere tamb茅m a Queiroz o poder de efetuar saques banc谩rios e assinar cheques das contas do coronel Teixeira. Al茅m disso, o ent茫o assessor de Fl谩vio ganhou o direito de usar como garantia para empr茅stimos “o im贸vel situado na rua Baronesa”. Trata-se de um apartamento localizado em Jacarepagu谩, zona oeste do Rio, uma regi茫o controlada pela mil铆cia, e que pertencia ao coronel. O im贸vel foi vendido a Queiroz em uma transa莽茫o que, segundo os documentos registrados em cart贸rio, se prolongou por 19 anos e s贸 teve desfecho justamente quando surgiram as primeiras reportagens sobre o esc芒ndalo das rachadinhas, em dezembro de 2018.
Atualmente, quem vive no apartamento 茅 a D茅bora Melo Fernandes, ex-esposa de Fabr铆cio Queiroz, segundo o que ele mesmo disse ao Intercept. Apesar disso, o registro geral do im贸vel, que consultamos em 28 de mar莽o no 9潞 Of铆cio de Registro de Im贸veis do Rio, ainda traz o nome de Teixeira como propriet谩rio do apartamento.
馃憜 Trecho da procura莽茫o em que o coronel Teixeira e a esposa d茫o a Fabr铆cio Queiroz at茅 mesmo o poder de movimentar contas banc谩rias deles.
脌 茅poca em que foi assinada a procura莽茫o, em dezembro de 2009, Teixeira era militar da ativa no Ex茅rcito e Queiroz operava o esquema das rachadinhas no gabinete do ent茫o deputado estadual Fl谩vio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, segundo a den煤ncia apresentada em outubro de 2020 pelo Minist茅rio P煤blico estadual. Os promotores acusam a organiza莽茫o criminosa comandada por Fl谩vio de desviar e lavar dinheiro p煤blico em compras de im贸veis em nome do pol铆tico. Ele e Queiroz negam.
Falando sob a condi莽茫o de n茫o terem as identidades reveladas, funcion谩rios da Caixa disseram que o 煤nico procedimento necess谩rio em caso de transfer锚ncia do financiamento seria a aprova莽茫o do cadastro de Queiroz no banco. Eles tamb茅m afirmaram que a procura莽茫o com amplos poderes dada a Queiroz pelo coronel Teixeira 茅 desnecess谩ria e raramente vista em situa莽玫es como essa. O caminho mais f谩cil e habitual seria estabelecer uma procura莽茫o com fim espec铆fico – a transfer锚ncia do im贸vel.
Entrevistados, nem Queiroz nem Teixeira explicaram porque optaram pela procura莽茫o de amplos poderes.
Conversamos com Queiroz duas vezes por telefone. Na primeira vez, em 30 de mar莽o, ao ser questionado sobre a procura莽茫o, se irritou e desligou o telefone sem responder.
Uma semana depois, no dia 7 de abril, telefonamos novamente para Queiroz. Dessa vez, ele atendeu e nos deu uma entrevista de 30 minutos – que, fez quest茫o de dizer, tamb茅m gravou. Queiroz contou que, no intervalo de uma semana entre as nossas liga莽玫es, procurou o coronel Teixeira para conversar sobre a reportagem que est谩vamos apurando. Ambos deram vers玫es semelhantes e evasivas 脿 pergunta: qual a finalidade real da procura莽茫o para Queiroz movimentar as contas de um coronel do Ex茅rcito?
Queiroz e o coronel Teixeira disseram que a procura莽茫o servia apenas para pedir 脿 Caixa os boletos do financiamento do apartamento que eventualmente atrasavam ou se perdiam, porque o oficial nem sempre estava no Rio de Janeiro e n茫o conseguiria resolver essas pend锚ncias. Ambos negam que tenha havido qualquer movimenta莽茫o financeira, saque ou outras opera莽玫es banc谩rias.
Durante a entrevista com Queiroz, destacamos o trecho da procura莽茫o que detalha os amplos poderes que o coronel lhe deu. Na sequ锚ncia se deu o seguinte di谩logo:
Fabricio Queiroz – [rindo] Como eu vou [fazer] saque e dep贸sito na conta de um coronel do Ex茅rcito? Pelo amor de Deus, gente.
Intercept – 脡 o que gostar铆amos de entender, porque est谩 registrado em cart贸rio e assinado.
Queiroz – Assinado por ele, por mim, 茅… Com certeza o tabeli茫o colocou coisas demais ali. P么, eu custei a pagar esse apartamento. Eu ficava tr锚s, quatro, cinco meses sem pagar, [em seguida] fazia um empr茅stimo, quitava as presta莽玫es atrasadas. Eu trabalhava muito em seguran莽a [privada] para conseguir quitar esse apartamento. Na 茅poca eu lembro que… Eu acho que atrav茅s disso a铆 eu poderia pedir l谩. […] Citar isso da铆, foi equivocadamente que colocaram. Geralmente, quando tu faz uma procura莽茫o eles colocam v谩rias coisas, v谩rias coisas. Eu acho que foi um erro que teve, n茫o teve nada al茅m disso.
J谩 o coronel Teixeira nos disse que essa venda com contrato de gaveta era “comum” nos anos 1990.
“Por que o contrato 茅 assim? Porque o apartamento fica no nome de quem financiou, mas existe, como disse, a compra por parte de uma terceira [pessoa] e voc锚 tem que fazer uma procura莽茫o. Eu, sendo militar, nem sempre estava no Rio de Janeiro. E de vez em quando eu era chamado pela Caixa para resolver problemas administrativos, boleto que n茫o chegou, atraso de pagamento, etc. Ent茫o, era normal, e 茅 normal, que a gente fa莽a uma procura莽茫o para pessoa que comprou, para que ele resolva aquilo ali, se n茫o voc锚 vai viver eternamente resolvendo problema para pessoa”.
Se, de fato, os poderes concedidos pela procura莽茫o foram “exagerados”e “jamais usados”, Queiroz e – principalmente – o coronel Teixeira jamais se preocuparam com um eventual mau uso deles, o que demonstra uma rela莽茫o de profunda e m煤tua confian莽a.
O rolo do im贸vel
A partir dos documentos levantados em nove cart贸rios do Rio, pudemos identificar que a primeira rela莽茫o de neg贸cios entre o coronel Teixeira e Fabr铆cio Queiroz data de mar莽o de 1999. O objeto dela 茅 justamente o apartamento da rua Baronesa, mais tarde citado na procura莽茫o. O im贸vel pertencia a Teixeira, que o havia comprado via financiamento dez anos antes, em 1989. De acordo com a escritura, o valor venal 茅 de R$ 229 mil.
Segundo a escritura registrada no 4潞 Of铆cio Notarial do Rio, em mar莽o de 1999 Teixeira fez uma promessa de compra e venda do apartamento a Queiroz. Esse mesmo ato deu posse do im贸vel a Queiroz, que assumiu tamb茅m a responsabilidade de arcar com taxas e impostos dele.
Pelos termos do acordo, Queiroz e a ent茫o esposa D茅bora Melo Fernandes pagaram R$ 20 mil – R$ 83,7 mil, corrigindo-se o valor pelo IPCA – ao coronel e 脿 esposa dele. Al茅m disso, ficou registrado que os compradores se comprometiam a assumir as 72 parcelas restantes do financiamento ao longo dos seis pr贸ximos anos – ou seja, at茅 2005.
馃憜 O compromisso de compra e venda, de 1999: Queiroz pagou R$ 20 mil (R$ 87 mil atuais) e assumiu o financiamento do coronel Teixeira.
Mesmo com o financiamento em nome de Teixeira, Queiroz deveria fazer os pagamentos mensais e apresentar os comprovantes ao oficial do Ex茅rcito at茅 que transferisse a d铆vida para seu nome ou quitasse o saldo devedor do im贸vel. Por茅m, uma carta de notifica莽茫o de 30 de junho de 2007, guardada pelo 2潞 Registro de T铆tulos e Documentos do Rio, indica que dois anos depois o financiamento n茫o s贸 ainda estava em aberto como havia parcelas atrasadas.
Assim, o documento deixava claro que, se tais exig锚ncias n茫o fossem cumpridas, o contrato de compra e venda deveria ser cancelado. Mas, como se tratava de uma a莽茫o entre amigos, isso nunca ocorreu.
O documento foi emitido pela empresa gestora de ativos e alertava Teixeira da possibilidade de hipoteca e leil茫o p煤blico do apartamento caso n茫o fossem pagas, em at茅 20 dias, as parcelas atrasadas. A d铆vida somava de R$ 6.402,03 – equivalentes a R$ 14,9 mil em valores corrigidos.
馃憜 Trecho de documento de financiamento de ve铆culo de 2012 de Fabr铆cio Queiroz: ele declarava morar no apartamento do coronel Teixeira.
Outros dois documentos p煤blicos, que tratam de financiamentos de autom贸veis, confirmam que Queiroz seguia morando (ou, pelo menos, que dizia morar) na rua Baronesa em 2009 e 2012.
Perguntamos a ambos como se conheceram. Ambos nos disseram que foram apresentados por um amigo em comum, de quem o coronel diz n茫o se lembrar do nome. J谩 Queiroz disse apenas que se chamava Hernandes, um conhecido das quadras de futebol que trabalhava com vendas e com quem n茫o tem mais contato. Ele negou que o amigo tenha participado da venda.
Queiroz, 脿 茅poca policial militar da ativa, n茫o disse se tinha condi莽玫es de assumir o financiamento aprovado na Caixa. “脡 que n茫o deu tempo ainda [para transferir o im贸vel para seu nome]. Essas confus玫es. Eu sou muito relaxado quanto a isso. Inclusive, todo mundo fala, rapaz voc锚 tem que passar esse financiamento para o seu nome porque pode dar problema. Ele morre e falam que n茫o comprei [o apartamento]”, disse Queiroz.
A coincid锚ncia com as rachadinhas
A negocia莽茫o de compra e venda do apartamento da rua Baronesa, iniciada em 1999, s贸 foi conclu铆da no dia 7 de dezembro de 2018. Naquele dia, Queiroz e a 脿quela altura ex-esposa D茅bora Fernandes assinaram uma escritura de compra e venda do im贸vel no 2潞 Of铆cio de Notas do Rio.
O documento foi registrado em cart贸rio no dia seguinte ao da publica莽茫o da primeira reportagem que trouxe 脿 tona o nome de Queiroz, publicada pelo Estad茫o. A mat茅ria revelava que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, havia identificado movimenta莽玫es at铆picas de R$ 1,2 milh茫o nas contas do assessor de Fl谩vio Bolsonaro. As reportagens j谩 citavam a transfer锚ncia de um cheque de Queiroz para uma conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.
O passo seguinte deveria ser a altera莽茫o da titularidade do im贸vel, o que n茫o ocorreu ao menos at茅 28 de mar莽o de 2022, como demonstra a matr铆cula pesquisada pelo Intercept. O apartamento segue em nome do coronel Teixeira.
A altera莽茫o de titularidade de um im贸vel exige algumas formalidades.O vendedor precisa, por exemplo, apresentar certid茫o negativa de d茅bitos junto aos governos federal, estadual e municipal. Por lei, s贸 o registro do im贸vel garante o direito de propriedade dele.
A certid茫o de compra e venda de 2018 indica que Fernandes continuava morando no apartamento, mas Queiroz havia se mudado para outro endere莽o tamb茅m em Jacarepagu谩. Nessa 茅poca, os dois j谩 estavam separados e divorciados – e eram, ambos, investigados no caso das rachadinhas no gabinete de Fl谩vio Bolsonaro.
Ao Intercept, Queiroz argumentou que “n茫o tem condi莽玫es” de passar o apartamento para seu pr贸prio nome – ou o de D茅bora Fernandes.
馃憜 A escritura que concretiza a negocia莽茫o do im贸vel, em dezembro de 2018: emitida apenas tr锚s dias depois da reportagem que apresentou Fabr铆cio Queiroz ao mundo e o vinculou 脿 suspeita de rachadinhas no gabinete de Fl谩vio Bolsonaro.
“J谩 zerou tudo, praticamente tudo, s贸 falta eu passar para o meu nome. Estou meio enrolado, n茫o posso agora gastar R$ 3 mil”, afirmou Queiroz, estimando o valor que a burocracia lhe custaria. O ex-assessor de Fl谩vio afirmou que, apesar de n茫o morar no im贸vel da rua Baronesa, paga todos os custos de manuten莽茫o para a ex-esposa. Ele disse arcar com a “pens茫o aliment铆cia e o condom铆nio” de Fernandes, al茅m das contas de 谩gua, luz e IPTU. “Pago porque isso vai ser o futuro das minhas filhas, vai ficar para elas”, justificou-se.
A escritura de compra e venda indica que os passos finais do neg贸cio come莽aram em 29 de novembro de 2018, com o pagamento do imposto de transmiss茫o do im贸vel. Naquele momento, j谩 havia sido deflagrada pela Pol铆cia Federal a opera莽茫o Furna da On莽a, que investigava desvios de verba p煤blica em gabinetes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Essa opera莽茫o, que atingiu Queiroz, foi avisada com anteced锚ncia a Fl谩vio pela Pol铆cia Federal, segundo denunciou 脿 Folha o articulador da campanha presidencial de Bolsonaro, Paulo Marinho. Empres谩rio, Marinho depois rompeu com os Bolsonaro, apesar de seguir como suplente de Fl谩vio no Senado.
Outro ex-aliado do cl茫, Abraham Weintraub, em entrevista ao podcast Intelig锚ncia Ltda, corroborou as den煤ncias de Marinho a respeito do vazamento da opera莽茫o da PF. Fl谩vio sempre negou que soubesse das informa莽玫es previamente, mas Queiroz foi exonerado do gabinete dele na Assembleia menos de um m锚s antes da investiga莽茫o se tornar p煤blica.
脌quela 茅poca, o coronel Teixeira, j谩 na reserva, exercia a fun莽茫o de coordenador log铆stico no Minist茅rio da Integra莽茫o nos 煤ltimos dias do governo Michel Temer. Na gest茫o Bolsonaro, a pasta foi integrada ao atual Minist茅rio do Desenvolvimento Regional.
Ao Intercept, Queiroz e o coronel Teixeira negaram que o esc芒ndalo das rachadinhas tenha influenciado na negocia莽茫o do apartamento. O militar considerou que a venda foi um al铆vio, apesar de se sentir exposto por isso.
“A gente, logicamente, n茫o 茅 alienado do mundo. Para mim s贸 teve pontos positivos [a conclus茫o da venda]. Eu nunca imaginava, em 1999, qualquer situa莽茫o ao que pudesse vir no futuro. Para mim foi bom, entendeu? Agora, a pergunta acho que tinha que ser direcionada para ele [Queiroz]. Acho que 茅 mais interesse dele. Por que quem fica exposto nesse caso sou eu, n茅?”, argumentou Teixeira.
Queiroz nos respondeu que a venda se concretizou em dezembro de 2018 porque “foi a hora que eu tive tempo, que eu tava livre, tirei f茅rias”. “Pedi minha exonera莽茫o [do gabinete do ent茫o deputado Fl谩vio Bolsonaro] para resolver todos os meus problemas, tanto de sa煤de quanto particulares”, disse.
Perguntamos ao coronel se ele confiava em Queiroz e se faria a venda novamente e nas mesmas condi莽玫es. Ele desconversou e disse que n茫o se sentia 脿 vontade para responder.
Nos hospitais Federais do Rio
Antes de chegar 脿 Casa da Moeda, o coronel Teixeira j谩 circulava no Planalto. Ele havia sido convocado pela Secretaria-Geral da Presid锚ncia da Rep煤blica para uma a莽茫o priorit谩ria dos primeiros dias do governo Bolsonaro.
Escolhido pelo ent茫o ministro e general da reserva Floriano Peixoto, Teixeira participou entre fevereiro e julho de 2019 de uma for莽a-tarefa batizada de A莽茫o Integrada de Apoio 脿 Gest茫o dos Hospitais Federais do Rio de Janeiro, listada como uma das metas dos primeiros 100 dias da administra莽茫o dos militares. A contrata莽茫o dele se deu por interm茅dio da Funda莽茫o Oswaldo Cruz, a Fiocruz, ligada ao governo federal. O sal谩rio mensal girava em torno de R$ 10 mil, segundo nos disse.
Durante a carreira como oficial da ativa, o coronel Teixeira ocupou cargos no Ex茅rcito e do Minist茅rio da Defesa em que detinha poder de decis茫o em processos de licita莽茫o, contratos e ordenamento de despesas. Num deles, respondeu a processo criminal em que foi acusado de participar de um esquema de emiss茫o de notas frias para a aquisi莽茫o de medicamentos e equipamentos para o hospital militar do Recife. Foi inocentado.
As acusa莽玫es contra o coronel est茫o detalhadas em uma auditoria militar. Foram identificados os crimes de estelionato, corrup莽茫o passiva, corrup莽茫o ativa, falsifica莽茫o de documentos que causaram preju铆zos de R$ 4 milh玫es aos cofres p煤blicos. A Justi莽a Militar apurou den煤ncia contra 18 pessoas. Teixeira foi absolvido, mas outras dez pessoas, entre civis e militares, foram condenadas 脿 pris茫o pelo Superior Tribunal Militar. As penas variaram de quatro a seis anos de pris茫o.
Washington Teixeira 茅 da turma de 1985 da Academia Militar das Agulhas Negras, a Aman, respons谩vel por formar todos os oficiais do Ex茅rcito brasileiro. O curr铆culo dele, dispon铆vel no site da Casa da Moeda, indica que ele se especializou em trabalhar em hospitais da for莽a.
Na Aman, Teixeira escolheu a arma da intend锚ncia – a mesma de de um general famoso, Eduardo Pazuello, de quem foi contempor芒neo na academia. No Ex茅rcito, o pessoal da intend锚ncia 茅 respons谩vel por administrar a rotina e a burocracia do funcionamento dos quart茅is. Mesmo em situa莽茫o de combate, cabe 脿 intend锚ncia cuidar de fazer chegar 谩gua, comida e suprimentos a quem est谩 na linha de frente. Por tudo isso, os oficiais da intend锚ncia s茫o tidos como os “civis” entre os militares – o que, no meio, 茅 tudo menos um elogio. Eles tamb茅m n茫o podem, se chegarem a generais, ganhar a quarta estrela – o topo da carreira para quem 茅 da intend锚ncia 茅 ser general de tr锚s estrelas.
A carreira de Teixeira foi a t铆pica para um oficial da intend锚ncia. Ele passou a maior parte do tempo no servi莽o ativo em cargos de controle de contas, ordenamento de despesas e realiza莽茫o de licita莽玫es de 贸rg茫os do Ex茅rcito e hospitais militares.
CPI da Pandemia levantou a suspeita de que gest茫o dos hospitais federais do Rio estaria sob influ锚ncia direta de Fl谩vio Bolsonaro.
A experi锚ncia com processos de compras e a rede de amigos que estabeleceu na caserna levaram Teixeira a participar do governo Bolsonaro. Em fevereiro de 2019, uma das prioridades do rec茅m-iniciado mandato era organizar a burocracia, os processos licitat贸rios e os tr芒mites internos dos seis hospitais federais do Rio de Janeiro.
Esse projeto foi comandado inicialmente pelo coordenador da campanha de Bolsonaro e ex-ministro da Secretaria-Geral da Presid锚ncia, Gustavo Bebianno, morto em mar莽o de 2020. Ele esteve 脿 frente das A莽玫es Integradas e denunciou que milicianos comandavam o hospital federal de Bonsucesso. Poucas semanas depois da den煤ncia, Bebianno saiu do governo rompido com Bolsonaro e o filho 02, o vereador Carlos.
A CPI da Pandemia do Senado levantou a suspeita de que a gest茫o dos hospitais federais do Rio estaria sob influ锚ncia direta do senador Fl谩vio Bolsonaro. Ele sempre negou.
Teixeira e outros seis colegas coron茅is do Ex茅rcito foram levados ao grupo de coordena莽茫o ap贸s a queda de Bebianno pelas m茫os do general Floriano Peixoto, que assumiu a vaga de ministro. Atualmente, Peixoto preside os Correios.
Uma das pessoas que esteve 脿 frente dessas a莽玫es nos contou, sob a condi莽茫o de n茫o ser identificada, que foi op莽茫o de Peixoto a entrada dos militares em Bonsucesso, “onde havia muita den煤ncia de m谩 pr谩tica e sabotagem”. Teixeira informa em seu curr铆culo que trabalhou no grupo como consultor. Mas h谩 poucos registros p煤blicos sobre as fun莽玫es que desempenhava no cargo. A 煤nica vez em que Teixeira aparece na agenda de Floriano Peixoto 茅 no dia 26 de mar莽o de 2019, mas n茫o h谩 detalhes do que foi tratado pelos dois.
Teixeira nos confirmou que a escolha dos militares para a A莽茫o Integrada se deu por op莽茫o da Secretaria-Geral da Presid锚ncia, a partir da indica莽茫o de amigos do Ex茅rcito.
“Sou do tempo em que a gente falava assim, naquele dia de S茫o Cosme e Dami茫o vai dar [bala]. A铆 voc锚 j谩 sabia, e naquele dia e hora voc锚 estava l谩. Voc锚 fica sabendo, as pessoas conversam, n茅?”, afirmou, ao nos explicar como chegou ao cargo. Ele disse ainda que amigos da caserna o avisaram sobre o processo, mas que a escolha se deu por an谩lise de curr铆culo na Secretaria-Geral da Presid锚ncia.
Queiroz e os Bolsonaro
Policial militar aposentado e h谩 d茅cadas amigo 铆ntimo de Jair Bolsonaro, Fabr铆cio Queiroz atualmente 茅 pr茅-candidato a deputado federal pelo PTB do Rio. Tendo apoio da fam铆lia presidencial, ele n茫o se intimidou nem mesmo com os processos e as den煤ncias do Minist茅rio P煤blico do Estado do Rio que o levaram a pris茫o. Os promotores o acusam de ser operador do esquema de desvio de verba p煤blica e lavagem de dinheiro que movimentou R$ 2 milh玫es entre 2007 e 2018 no gabinete do ent茫o deputado estadual Fl谩vio Bolsonaro.
Queiroz j谩 foi descrito pelo pr贸prio presidente como um homem que “fazia rolo”. Os documentos p煤blicos levantados por n贸s em nove cart贸rios do Rio de Janeiro indicam que, por um lado, Bolsonaro tem raz茫o. Por outro, jogam mais d煤vidas sobre os segredos que guarda o homem de confian莽a da fam铆lia presidencial.
Guilherme Mazieiro guilhermemazieiro@protonmail.com @guilhermezmazi1


