Suposto atentado a Tarcísio pode ser parte de uma grande armação e precisa ser melhor investigado

Há pelo menos dois dias antes do atentado já circulava um vídeo em redes bolsonaristas com o general Heleno avisando que o candidato poderia sofrer um atentado se fosse a debates. O vídeo era de 2018, mas a legenda falava em Tarcísio. Siga o fio na matéria...

Tarcisio Gomes de Freitas sorri durante suposto tiroteio em Paraisópolis. Créditos: Reprodução/TV Globo

Por Renato Rovai

O suposto atentado a Tarcísio Gomes de Freitas precisa ser investigado pela polícia de São Paulo, porque há indícios claros de que pode fazer parte de uma grande armação política para a reta final das eleições.

A primeira questão que você deve estar se fazendo é: mas para que isso se Tarcísio está na frente de Haddad nas pesquisas? Mas quem está dizendo que Tarcísio está envolvido nisso. Aliás, o candidato a governador fez questão de na primeira entrevista se esquivar da narrativa de que teria sido vítima de um atentado. Mas essa narrativa interessa muito a Bolsonaro. Por dois motivos: o primeiro é que ele precisa abrir uma grande diferença em São Paulo se quiser vencer Lula no país. Segundo, a campanha de Bolsonaro está buscando associar Lula e o PT ao crime organizado desde o 1º turno.

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Na sexta-feira (30/9), há dois dias da eleição de 1º turno, a TV Record fez uma matéria onde associava o traficante Marcola ao PT e Lula. A campanha de Bolsonaro viralizou este conteúdo durante todo o final de semana e alguns estudiosos de pesquisa avaliam que este fato pode ter levado a indecisos e eleitores de Ciro e Tebet migrarem ainda no 1º turno para Bolsonaro.

Neste domingo (16), no debate da Band/UOL, Bolsonaro voltou com essa história de que o PT tem ligação com o crime organizado, falando inclusive de Marcola.

Outro elemento importante e que você pode recuperar neste fio é que dois dias antes do suposto atentado contra Tarcísio já circulava um vídeo montado com o general Heleno onde se dizia que Tarcísio poderia sofrer um atentado.

E por fim, o suposto atentado foi um tiroteio porque dois homens em uma moto teriam passado várias vezes por um local filmando e, em determinando momento, por volta das 11h20, teriam sido abordados. E aí um policial à paisana matou um deles, Felipe Silva de Lima, de 27 anos, que foi atingido no peito. Ou seja, um policial à paisana matou um jovem que filmava alguma coisa. Este foi o evento tratado como uma atentado.

A seguir coloco alguns fatos numa lógica de fio de twitter para que o leitor perceba como há questões estranhas e que precisam ser melhor esclarecidas. 

Sigam o fio:

Fato 1: A Jovem Pan foi o primeiro canal a noticiar

Às 11h40min: Jovem Pan notícia "O candidato Tarcísio Gomes de Freitas sofreu um atentado. Ele estava ingressando na comunidade Paraisópolis e foi recebido a tiros dentro de uma Van. Essa narrativa pode ser verificada no programa MORNING SHOW, Veja no tempo 1h44min

Fato 2: UOL e G1 deram 7 e 8 minutos depois

Às 11h47min o UOL noticiou: "Tarcísio sai às pressas de Paraisópolis após tiros em agenda de campanha".

Às 11h48min: G1 noticiou: "Visita de Tarcísio de Freitas a Paraisópolis, na Zona Sul de SP, é interrompida por tiroteio na comunidade".

Fato 3: Matéria na Wikipedia

A página da Wikipedia foi criada exatamente às 12h, ou seja, imediatamente após as primeiras divulgações do ocorrido na grande mídia. É comum a criação rápida na Wikipedia em acontecimentos importantes, porém a página já foi criada com a narrativa de atentado exatamente 13 minutos da matéria ter sido publicada no UOL e no G1, sites que tinham repórteres acompanhando o evento. E na wikipedia a informação era de que tinha sido um atentado. Depois o verbete foi derrubado por erro de informação..

Fato 4: Dois dias antes já se falava em atentado a Tarcísio

Dois dias antes do ocorrido foi detectado pelo monitoramento do #DataFórum a circulação intensa no Telegram de um vídeo do General Heleno, de 2018, justificando a ausência no debate com Haddad por conta de um risco de atentado. Porém, o vídeo foi postado em conjunto com a legenda: "General Heleno revela plano para assassinar Tarcísio de Freitas. Os cupinxas estão tocando terror por desespero da derrota da Coligação narco-comunista PT CV PCC"

O vídeo foi checado pelo G1, que registrou a legenda como falsa. Como também confirma a constatação do #DataFórum, que o vídeo já circulava no final de semana:  "O vídeo antigo tem sido compartilhado desde o final da semana passada". Leia neste link a matéria do G1.

Fato 5: As redes já estavam mobilizadas e perfis novos foram usados

No momento imediatamente posterior a ocorrência de tiros surgiu um grande movimento de redes com a narrativa de "atentado contra Tarcísio", explorando politicamente o fato, inclusive com a tentativa de associar o PT à criminalidade. O analista de redes sociais Arcelino Neto detectou que as contas que tuitaram sobre o "atentado" foram criadas recentemente, com fortes indícios de que se tratariam de perfis criados para auxiliar na campanha do Bolsonaro. Também foi identificado, através do algoritmo Botometer, que 28,1% dos perfis que tuitaram sobre o tema apresentam indícios de automação.

Neste link o estudo do Arcelino

Fato 6: O tiroteio na verdade foi fruto de uma suposta filmagem

O tal do atentado na verdade teria o seguinte: um policial à paisana atirou e matou um homem em Paraisópolis que estaria passando de moto e filmado um local. O rapaz morto com um tiro no peito se chamava Felipe Silva de Lima, de 27 anos. Como o policial que atirou nele estava à paisana não há câmera para mostrar o que de fato ocorreu. Mas este teria sido o fato que levou que alguns tiros fossem ouvidos na comunidade quando Tarcísio estava chegando lá.

A história foi registrada pelo G1: "DHPP diz que policial à paisana atirou e matou homem em Paraisópolis; Tarcísio cumpria agenda na região".

Fato 7: Visita a Paraisópolis não estava na agenda

A visita a Paraisópolis foi colocada de última hora na agenda de Tarcísio. Só no domingo (16), às 21h15. A agenda enviada anteriormente à imprensa não previa a ida à comunidade.

Fato 8: SSP centraliza informações após DHPP divulgar nomes

A Fórum entrou em contato com a DHPP para obter mais informações atualizadas sobre o caso. A reportagem foi informada que todas as informações estavam centralizadas na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP). Por telefone, solicitaram que a demanda fosse encaminhada por e-mail. Até o momento, não houve retorno.

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