Quem é Simone Tebet?

Muita gente talvez nunca tivesse ouvido falar de Simone Tebet, ou tivesse visto apenas uma ou outra menção ao seu nome por causa da CPI da Covid, até bem recente. A senadora ganhou espaço nas notícias e nas rodas de conversa após ter uma participação relativamente bem sucedida na entrevista ao Jornal Nacional e ter sido considerada por muitos a “vencedora” do primeiro debate entre os candidatos e candidatas à Presidência, no último domingo (28).


A senadora Simone Tebet é autora do projeto de lei que pretende impedir a demarcação de terras indígenas em áreas de conflito - Foto 👆 Marcos Oliveira/Agência Senado

Então achamos por bem falar um pouco sobre ela, para que possa ser mais conhecida pelo público, como ela deseja. E temos que começar contando que seu currículo não é pequeno. Vamos lá.

Simone Tebet é senadora desde 2015 e ganhou destaque como uma das vozes mais marcantes da CPI da Covid contra o governo Bolsonaro, criticando o negacionismo do presidente. Em entrevista ao Brasil de Fato em outubro do ano passado, ela defendeu o indiciamento de militares e integrantes do “Centrão” acusados de participação em supostos esquemas de corrupção. Mas Tebet e Bolsonaro nem sempre estiveram em lados opostos na política.

Simone Tebet é representante da bancada ruralista do Mato Grosso do Sul.

Ela vem de uma família proprietária de terras e influente na política, faz parte de umas das oligarquias mais poderosas da política do estado.  – seu pai, Ramez Tebet, chegou a ser ministro no governo Fernando Henrique e presidente do Senado. Simone seguiu seus passos: foi prefeita de Três Lagoas (MS), deputada estadual e vice-governadora na chapa de André Puccinelli (MDB), até virar senadora.

A família Tebet é citada no estudo Poder oligárquico, questão agrária e função legislativa no território sul-mato-grossense como uma das três oligarquias mais poderosas do estado. 

Esses grupos, além de deter grandes porções de terra, atuam também na política com intuito de "garantir o fortalecimento do processo de apropriação capitalista da terra engendrado por seus antecessores desde o século retrasado".

Mafort lembra que o processo de ascensão ao poder das oligarquias no MS se iniciou durante a ditadura. "Nós temos uma memória da criação do MS, que se deu no contexto da ditadura civil militar em 1977. De lá para cá, existe uma total interligação entre as oligarquias rurais, a política e o agronegócio", afirma. 

Tebet herdou também fazendas no Mato Grosso do Sul. Uma delas fica em Caarapó, região de intensos conflitos entre ruralistas e povos indígenas Guarani-Kayowá, de acordo com o Conselho Indígena Missionário (Cimi). A fazenda de Simone Tebet é uma das reivindicadas pelos indígenas como seu território originário. O processo de demarcação do local chegou a ser iniciado no governo Dilma, mas não foi adiante.

Autora do Projeto de Lei 494/15, que pretende impedir a demarcação de terras indígenas em áreas de conflito e altera o Estatuto do Índio, ela também apoia a PEC 45/13, que altera o artigo 231 da Constituição para impedir a demarcação de terras indígenas em áreas tradicionais.

"A atuação dela no parlamento foi completamente violadora dos direitos humanos. É dela o projeto de lei para suspender estudos sobre áreas para demarcação indígena, quando há conflito. E obviamente que há conflito, porque essa á única forma de os indígenas poderem lutar pela demarcação", diz Mafort. "A Simone Tebet está com suas mãos manchadas de sangue, e esse sangue é sangue indígena".

"É uma mulher forte, sem dúvida, teve uma boa atuação no debate, uma boa atuação na CPI da pandemia, mas isso é o mínimo. Nós estamos tão acostumados com esses políticos que querem declaradamente e falam o tempo todo de nos matar, que quando a gente vê uma política tradicional, chama a atenção", diz Kelli Mafort, integrante da Coordenação Nacional do MST.

Em 2021, uma operação da Polícia Federal na região matou um indígena e deixou oito feridos. Em 2016, um ataque de ruralistas também matou um indígena e feriu oito, no que ficou conhecido como Massacre de Caarapó. O marido de Tebet, Eduardo Rocha (deputado estadual pelo MDB), se solidarizou com os ruralistas.

Como senadora, Simone Tebet votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff, do Teto de Gastos, que tira recursos da saúde e da educação, e das reformas trabalhista e da Previdência. E apoiou projetos dos ruralistas, chegando a figurar em uma lista do Cimi dos 50 parlamentares que mais atuaram contra os interesses dos povos indígenas.

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Aliás, Tebet votou com o governo Bolsonaro em 86% das vezes, com destaque para o apoio à ampliação da posse de armas em propriedades rurais, segundo levantamento da Agência Pública.

Ela é também é uma das candidatas que mais recebeu doações dos ruralistas na campanha de 2014.

Simone Tebet se tornou a promessa da terceira via com a saída de João Doria (PSDB) da disputa à Presidência. Agora, a senadora tenta se desvincular das origens ruralistas para angariar a simpatia de eleitores ligados às pautas ambientais. Sua assessoria foi até bloqueada na Wikipedia por tentar editar informações sobre os temas ambiental, indígena e de direitos humanos do seu perfil, como divulgou o site Metrópoles.

Simone Tebet concorre à Presidência da República pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), antigo PMDB, e tem como vice a também senadora Mara Gabrilli (PSDB).

E as propostas?

Falamos bastante de Simone Tebet, mas agora vamos falar de como se posicionam todos os candidatos em relação a um tema bem importante: REFORMA AGRÁRIA. Como já se pode imaginar a partir da leitura do texto acima, a senadora emedebista não defende a reforma em suas propostas para a Presidência.

Mas não é só ela. Apenas quatro candidatos citam reforma agrária em seus programas de governo: Léo Péricles (UP), Lula (PT), Sofia Manzano (PCB) e Vera (PSTU). Outros quatro falam em regularização fundiária: Ciro Gomes (PDT), Jair Bolsonaro (PL) e Simone Tebet (MDB).

Mas essas coisas não são sinônimos. Regularização fundiária é a titulação aos proprietários de terras já identificados e cadastrados. Já a reforma agrária é a redistribuição de terras mesmo para quem ainda não é proprietário. Viu a diferença?!

Clique aqui para entender melhor o que dizem os programas dos candidatos sobre o assunto.

Seis anos do golpe

Sempre é importante lembrar: há seis anos o Senado votava a favor do impeachment de Dilma Rousseff. Essa foi a última etapa do processo e definiu o afastamento definitivo da primeira presidenta mulher da história do país, sem que ela tivesse cometido nenhum crime.

Desde então, foram aprovadas reformas trabalhista e da Previdência e Teto de Gastos, eleito Bolsonaro e destruídas as políticas de combate à fome, entre muitos outros retrocessos. Não à toa, este ano o Brasil voltou ao Mapa da Fome da ONU, do qual tinha saído em 2014.

Brasil de Fato

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