ūüĒď LEIA. Reportagem proibida: o cruzeiro macabro no Amazonas

Site Amaz√īnia Real teve que tirar reportagem do ar. Estou republicando ela aqui. Por Leandro Demori/via e-mail.

Pessoal, a Justi√ßa do Amazonas censurou uma reportagem do site Amaz√īnia Real e obrigou a ag√™ncia dirigida por K√°tia Brasil a tirar seu jornalismo do ar. Pena em caso de descumprimento: R$ 8.000,00.

A reportagem investigou quem eram os donos dos iates de luxo de uma festa que aconteceu durante a pandemia nos rios do Amazonas. Conhecido como “cruzeiro macabro”, os barcos levaram turistas aglomerados e sem m√°scara para visitar uma aldeia ind√≠gena enquanto o covid ainda matava dezenas de pessoas no estado. A covid √© muito mais perigosa para as comunidades ind√≠genas.

A decis√£o judicial viola as garantias constitucionais relativas √† liberdade de imprensa e informa√ß√£o, previstas nos artigos 5¬ļ e 220 da Constitui√ß√£o Federal. Infelizmente, isso vem acontecendo com muita frequ√™ncia no Brasil – algo impensado anos atr√°s.

A decis√£o foi da 10¬™ Vara C√≠vel e de Acidentes de Trabalho da Comarca de Manaus, acatando pedido dos ricos e poderosos empres√°rios locais Waldery Areosa Ferreira, Daniel Henrique Louzada Areosa e da empresa WL Sistema Amazonense de Turismo. Eles alegaram que a reportagem associa seus nome como organizadores do evento relatado, dizem que n√£o foram consultados antes da divulga√ß√£o das informa√ß√Ķes e que a mat√©ria tem conte√ļdo difamat√≥rio e calunioso, comprometendo a honra, a reputa√ß√£o e a imagem.

“Ao analisar o pleito, embora n√£o tenham os autores juntado uma prova sequer que embasasse seus pedidos, o ju√≠zo de primeiro grau concedeu de forma inexplic√°vel a tutela de urg√™ncia, baseando-se unicamente nas falsas afirma√ß√Ķes arguidas pelos autores”, diz a defesa da ag√™ncia, no recurso.

Eu Leandro Demori decidi publicar a reportagem proibida aqui na nossa news para que todos possam ter acesso a ela. Compartilhem este e-mail o m√°ximo que puderem. Vou deixar um bot√£o de “share” no final da p√°gina!

ANTES: se você recebeu essa mensagem compartilhada, assine A Grande Guerra! Todos os dias, de graça, na sua caixa de e-mail. Coloque seu endereço abaixo.

Subscribe now

Leia a reportagem do Amaz√īnia Real ūüĎá

Empres√°rio das √°reas da educa√ß√£o e do turismo, Waldery Areosa Ferreira √© o nome por tr√°s do “cruzeiro macabro” no Amazonas. O evento intitulado “Amazon Immersion” foi interceptado em uma opera√ß√£o da Pol√≠cia Civil em 6 de abril de 2021, quando navegava por rios da regi√£o com turistas brasileiros e estrangeiros. Todos se comportavam como se n√£o houvesse uma pandemia, e foram flagrados por policiais sem m√°scaras, muitos embriagados e participando de uma balada.

Na hora do flagrante, os turistas e a maior parte da tripula√ß√£o de tr√™s embarca√ß√Ķes que faziam parte da expedi√ß√£o estavam a bordo do iate de luxo Anna Beatriz 1. O barco n√£o possui registro na Capitania Fluvial da Amaz√īnia Ocidental. A informa√ß√£o foi confirmada pelo Comando do 9¬ļ Distrito Naval, da Marinha do Brasil, que instaurou um inqu√©rito para apurar o caso ap√≥s a ag√™ncia Amaz√īnia Real solicitar informa√ß√Ķes sobre o iate de luxo.

No passeio amaz√īnico, a embarca√ß√£o Anna Beatriz 1 era acompanhada por outros dois iates: Mano Zeca e H√©lio Gabriel. Os iates Anna Beatriz e H√©lio Gabriel pertencem √† empresa WL Sistema Amazonense de Turismo Ltda, tamb√©m propriet√°ria do hotel de selva Amazon Jungle Palace, que est√° em nome de Waldery Areosa Ferreira e seus filhos.

Iate Helio Gabriel, da Natureza Turismo, foi parado em blitz em 2011 (Foto ūüĎÜ: Alberto C√©sar Ara√ļjo/Amaz√īnia Real)

As embarca√ß√Ķes se encontram em exposi√ß√£o no site da pr√≥pria empresa. O iate Anna Beatriz 1 possui 19 su√≠tes, todas com ambientes climatizados. Conta ainda com restaurante, cozinha, bar e sala de jogos com TV, √°rea de entretenimento e lazer. A balada flagrada pela Pol√≠cia Civil ocorreu em um dos tr√™s decks do iate.

A WL Sistema Amazonense de Turismo, cujo nome fantasia √© Natureza Turismo NT, √© uma gigante do setor na regi√£o. De acordo com informa√ß√Ķes na Receita Federal, a empresa tem capital social de 70.592.697 reais, e pertence ao empres√°rio Areosa Ferreira e seus filhos, entre eles Waldery Areosa Ferreira Junior. Pai e filho foram alvo da Opera√ß√£o Estocolmo, deflagrada em 2012, que investigava um esquema de explora√ß√£o sexual de crian√ßas e adolescentes no Amazonas.

Waldery Je e Waldery Areosa (Foto ūüĎÜ: Reprodu√ß√£o Flickr)

De acordo com a opera√ß√£o, empres√°rios e pol√≠ticos pagavam para fazer sexo com meninas, e utilizavam uma ag√™ncia de modelos para atrair a aten√ß√£o das v√≠timas. O nome Estocolmo foi uma homenagem ao 1¬ļ Congresso Mundial de Enfrentamento da Explora√ß√£o Sexual de Crian√ßas e Adolescentes, que foi realizado em Estocolmo, na Su√©cia, em 1996.

Em reportagem veiculada no programa Fant√°stico, da TV Globo, Waldery Areosa Ferreira √© apontado como cliente de uma rede de explora√ß√£o sexual de crian√ßas e adolescentes no Amazonas. Na den√ļncia do Minist√©rio P√ļblico Federal (MPF), h√° grava√ß√Ķes em √°udio e v√≠deo que mostram que “o empres√°rio da √°rea de educa√ß√£o, ex-dono de um centro universit√°rio de Manaus e propriet√°rio de um hotel flutuante” tinha predile√ß√£o por adolescentes de 13 a 16 anos.

Fundador do Centro Universit√°rio do Norte – Uninorte, Waldery Areosa Ferreira j√° foi homenageado, em 2007, pelo governo do Amazonas com a “Medalha do M√©rito Educacional“. Nascido na Ilha da Paci√™ncia, em Iranduba (AM), o empres√°rio fez fortuna pelo ramo educacional na gest√£o do ex-governador Amazonino Mendes (hoje no partido PODEMOS), mas n√£o demorou para ampliar seus neg√≥cios para a √°rea de turismo. Sempre esteve ao lado do poder.

Atualmente, a empresa WL Sistema Amazonense de Turismo Ltda, tem um contrato com o governo de Wilson Lima (PSC), para o aluguel de um im√≥vel situado na rua Em√≠lio Moreira, n¬ļ 470, na Pra√ßa 14, na Zona Sul da capital amazonense. No local funciona a Secretaria de Estado das Cidades e Territ√≥rios (SECT). O contrato foi assinado em 02/01/2020 e tem validade at√© 31 de dezembro deste ano. Pelo neg√≥cio, o estado paga √† WL R$ 40 mil por m√™s. At√© o final do contrato, a empresa de Waldery Areosa vai receber um total de R$ 920.000 .

Waldery √© propriet√°rio do Hotel Amazon Jungle Palace. Inaugurado em agosto de 2009, o empreendimento j√° foi alvo de uma a√ß√£o civil p√ļblica ajuizada pelo MPF sob a acusa√ß√£o de danos ambientais. O hotel flutuante foi instalado no Lago do Tatu, em √°rea do Parque Estadual do Rio Negro Setor Sul, segundo indicou o MPF. Em abril de 2019, o juiz substituto Hiram Arm√™nio Xavier Pereira inocentou o empres√°rio.

A den√ļncia da rede ped√≥fila

A deputada √Črika Kokay durante viagem da CPI da Pedofilia a Coari em 20/02/2014 (Foto ūüĎÜ: Alberto C√©sar Ara√ļjo/Aleam)

Em 2014, a ent√£o presidente da CPI da Pedofilia da C√Ęmara, em Bras√≠lia, a deputada federal √Črika Kokay (PT-DF), e a relatora, deputada Liliam S√° (Pros-RJ), estiveram no Amazonas, para tomar depoimentos de testemunhas envolvidas em casos de explora√ß√£o sexual de crian√ßas e adolescentes. Antes de chegar ao Estado, a presidente da CPI recebeu uma c√≥pia do inqu√©rito de quase 4 mil p√°ginas da Opera√ß√£o Estocolmo.

√Ä √©poca, a Comiss√£o Parlamentar de Inqu√©rito divulgou os nomes dos r√©us que foram convocados a depor, e os Waldery, pai e filho, estavam entre eles. Apesar do grande “barulho” que a opera√ß√£o causou √† √©poca, at√© hoje, nove anos depois, o desfecho do caso ainda parece longe do fim.

Waldery Areosa Ferreira, junto com outras 14 pessoas, é réu no processo originado pela Operação Estocolmo. O caso tramita em segredo de justiça.

J√° o nome do primog√™nito do empres√°rio, Waldery Areosa Ferreira Junior, tamb√©m envolvido na rede de explora√ß√£o sexual de crian√ßas e adolescentes, ressurgiu em junho de 2020, ap√≥s den√ļncia do site The Intercept Brasil envolvendo a TV Bolsonaro. A empresa IP.TV oferece tecnologia usada por 7,1 milh√Ķes de alunos e professores de S√£o Paulo, Paran√°, Amazonas e Par√° para as aulas √† dist√Ęncia. Os estudantes do Amazonas e do Par√° s√£o bombardeados com conte√ļdos bolsonaristas pelo aplicativo Mano, de streaming de v√≠deos.

A IP.TV √© de propriedade de Eduardo Patr√≠cio Giraldez, que, por sua vez, mantinha sociedade com Areosa Junior na empresa Hexagono Technology – Hexagono Solu√ß√Ķes em Tecnologia da Informa√ß√£o. Esta √ļltima empresa, em fase de “extin√ß√£o por encerramento de liquida√ß√£o volunt√°ria”, apresentava como um dos contatos um email da empresa Natureza Turismo NT, a mesma da fam√≠lia Aerosa e dona do iate Anna Beatriz 1.

A “imers√£o” macabra

CLICK NA IMAGEM ūüĎÜ

O cruzeiro macabro intitulado “Amazon Immersion” acabou se tornando p√ļblico gra√ßas a um perfil no Instagram chamado “Brasil Fede Covid”, criada para denunciar aglomera√ß√Ķes clandestinas durante a pandemia do novo coronav√≠rus no pa√≠s. O panfleto do evento, todo em ingl√™s, prometia “uma jornada em dire√ß√£o a novas experi√™ncias”, com muita “cultura, natureza, m√ļsica, gastronomia, autoconhecimento e amizades”.

A “Imers√£o Amaz√īnica” teve in√≠cio em uma sexta-feira (2 de abril), e foi interrompida quatro dias depois (na ter√ßa-feira, dia 6) , com a chegada dos policiais do Departamento de Repress√£o ao Crime Organizado (DRCO) e da For√ßa Especial de Resgate e Assalto (o Grupo Fera).

“Flagramos diversas pessoas realizando uma festa. A grande maioria sem m√°scaras, consumindo bebidas e desrespeitando o decreto estadual”, disse o diretor do DRCO, delegado Bruno Fraga. De acordo com a pol√≠cia havia pelo menos 60 turistas no barco. Eles foram encaminhados √† Delegacia Geral, onde assinaram um Termo Circunstanciado de Ocorr√™ncia. Liberados, eles foram enquadrados no artigo 268 do C√≥digo Penal – Infringir determina√ß√£o do poder p√ļblico, destinada a impedir introdu√ß√£o ou propaga√ß√£o de doen√ßa contagiosa. A pena √© a pris√£o de um m√™s a um ano, e multa.

Embora o caso j√° tenha sido remetido √† Justi√ßa, a delegada-titular do 19¬ļ Distrito Integrado de Pol√≠cia, D√©bora Barreiros, afirma que as dilig√™ncias continuam. “Ainda estou levantando as ag√™ncias de turismo, pessoas que possam ter ajudado na promo√ß√£o dessa festa, porque al√©m do passeio de barco, temos visitantes em comunidades ind√≠genas. Precisamos apurar se houve pagamento, para quem foi pago esse dinheiro para ver quem s√£o as outras pessoas envolvidas nessa situa√ß√£o”, pontua Barreiros.

Violação a decreto

Reprodu√ß√£o do folder da programa√ß√£o do evento ūüĎÜ

A delegada D√©bora Barreiros j√° antecipou √† reportagem da Amaz√īnia Real que os propriet√°rios das embarca√ß√Ķes tamb√©m ser√£o responsabilizados por, no m√≠nimo, estarem “descumprindo o decreto do governador”.

Na √©poca em que o passeio aconteceu, o decreto do governo do Estado, em vigor, proibia a realiza√ß√£o de “passeios tur√≠sticos, em grupo ou individuais, em embarca√ß√Ķes”.

O √ļltimo decreto publicado pelo governo no dia 16 de abril, j√° flexibilizou “atividades de visita√ß√£o para contempla√ß√£o de atrativos naturais, na via fluvial e/ou terrestre, respeitando os protocolos de preven√ß√£o definidos pelos especialistas em sa√ļde, desde que as √°reas estejam liberadas pelo √ďrg√£o Gestor Ambiental das Unidades de Conserva√ß√£o (UC’s) do Estado do Amazonas”. Apesar da flexibiliza√ß√£o parcial, o governo manteve “vedado o contato com comunidades tradicionais ribeirinhas, e o desembarque de turistas nestes locais”.

Mesmo sem essa proibi√ß√£o, a Funda√ß√£o Nacional do √ćndio (Funai) j√° havia suspendido desde o dia 17 de mar√ßo do ano passado, conforme a Portaria n¬ļ 419/PRES 2020, todas as autoriza√ß√Ķes para ingresso em Terras Ind√≠genas. Somente est√£o permitidos os servi√ßos essenciais. “A Funai esclarece que n√£o coaduna com qualquer conduta il√≠cita e est√° √† disposi√ß√£o das autoridades policiais para colaborar com as investiga√ß√Ķes”, disse o √≥rg√£o, por meio de nota, √† Amaz√īnia Real.

Turistas foram em aldeia indígena

Turistas durante a festa (Reprodu√ß√£o redes sociais) ūüĎÜ

A Comunidade Ind√≠gena do Cipi√°, no baixo rio Negro, no entorno de Manaus – onde moram ind√≠genas dos povos Dessana, Tukano, Tuyuka, Cubeo e Bar√° – , foi um dos locais visitados pelos turistas do “Amazon Immersion”. Quem confirmou a presen√ßa dos turistas foi o cacique Domingos S√°vio Veloso Vaz, de 60 anos, que √© da etnia Dessana.

De acordo com o l√≠der ind√≠gena, os turistas chegaram √† noite na comunidade. “Eles passaram aqui de noite com a gente. Vieram rapidinho e subiram o rio. Eles assistiram o ritual. Fizemos um ritual para eles”, admitiu √† reportagem da Amaz√īnia Real.

O cacique informou que cada turista pagou 20 reais para assistir √† apresenta√ß√£o. “Eu acho que tinha uns 50 aqui. No barco tinha uns 70”, recordou. Vaz garante que os visitantes e os ind√≠genas usaram m√°scaras durante o ritual, apesar das fotos divulgadas nas redes sociais, pelos pr√≥prios turistas, mostrarem o contr√°rio.

Comunidades ind√≠genas como a do Cipi√° passaram, de uns anos para c√°, a viver exclusivamente do turismo. Com a pandemia, essa fonte de renda secou. “Estamos vivendo porque Deus √© grande, n√©? Estamos nos mantendo com peixinho, com farinha, com a ro√ßa, nem aux√≠lio emergencial do governo do estado ou do munic√≠pio, e nem federal a gente n√£o recebe aqui. √Č muito dif√≠cil”, desabafou o l√≠der ind√≠gena.

Ao longo da pandemia, os 43 ind√≠genas da comunidade contra√≠ram Covid-19. Nenhum deles, de acordo com Vaz, desenvolveu a forma mais severa da doen√ßa. Os ind√≠genas tamb√©m n√£o deixaram a comunidade para fazer qualquer tipo de tratamento. “N√≥s nos tratamos aqui mesmo, com nossa erva medicinal. N√≥s temos a √°rvore de sara tudo. Ela √© amarga. Tamb√©m temos capim santo, hortel√£, essas coisas”, disse.

As investiga√ß√Ķes

Grupo Fera da Pol√≠cia Civil chegando ao local (Foto: Secom) ūüĎÜ

A reportagem de Amaz√īnia Real procurou o MPF no Amazonas. O √≥rg√£o informou que encaminhou of√≠cios √† Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), √† Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), √† Empresa Estadual de Turismo do Amazonas (Amazonastur) e √† Funda√ß√£o Municipal de Cultura e Artes (Manauscult). O objetivo √© saber que medidas foram adotadas sobre o “cruzeiro macabro”.

O MPF informou ainda que encaminhou representa√ß√£o ao Minist√©rio P√ļblico do Estado do Amazonas (MP/AM) para apura√ß√£o de poss√≠vel crime.

A reportagem tentou entrevistar o empresário Waldery Areosa. Em contato com o hotel de selva Amazon Jungle Palace, um funcionário disse que o departamento jurídico entraria em contato para responder a demanda. Até a publicação desta reportagem não houve retorno.

COMPARTILHE A REPORTAGEM CLICANDO ABAIXO

Share

Leandro Demori

Postagem Anterior Próxima Postagem