O segredo sujo da corrupção

Hélio Schwartsman, jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…"

O Brasil piorou sua posição no ranking anual de percepção da corrupção da ONG Transparência Internacional. O país ocupa o 104º lugar entre as 180 nações analisadas.

Medir a corrupção esbarra num problema óbvio. Corruptos e corruptores têm todo interesse em permanecer nas sombras. É só quando cometem algum erro e o esquema é descoberto que vai para os registros. Como é razoável imaginar que a taxa de sucesso não seja das mais baixas, o grosso fica fora do radar.

Agentes da Polícia Federal durante operação em Brasília - Pedro Ladeira - 15.jun.23/Folhapress - Folhapress

A Transparência tenta contornar a dificuldade recorrendo a uma medida indireta, que é a percepção da corrupção. "Esse est percipi" ("ser é ser percebido"), já assegurava Berkeley. Só que Berkeley leva o idealismo longe demais. Há situações em que realidade e percepção diferem. Isso não invalida esforços como o da Transparência, mas deve nos fazer interpretar (perceber) seus achados com um grão de sal.

A corrupção varia em escopo e penetrância. Há países em que nenhum cidadão consegue acessar um serviço público, como hospital ou creche, sem molhar a mão de alguém, e há outros, como o Brasil, em que as negociatas se concentram nas altas esferas. No primeiro caso, a percepção é bem direta; no segundo, passa por intermediários, como órgãos de investigação, mídia e o próprio clima político.

A avaliação da Transparência é que a piora brasileira se deveu ao desmonte das instituições de controle. O processo atingiu o ápice sob Bolsonaro, e o governo atual pouco ou nada fez para reconstruí-las.

O segredo sujo em torno da corrupção é que ela perdura porque funciona. Como gosto de dizer, é a segunda melhor forma de organização da sociedade. O ideal seria um sistema no qual tudo se dá de acordo com regras impessoais. A Dinamarca talvez esteja perto disso. Mas, para nações menos escandinavas, a corrupção é preferível a um regime no qual tudo depende do capricho de autoridades ou em que "concorrências" são decididas à bala.

Folha de São Paulo

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