Os terraplanistas vão à guerra

 Por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile


.Quer paz? Já faz duas semanas que teve início a escalada do conflito histórico entre Israel e territórios palestinos. A situação polarizou o mundo, inclusive a política brasileira. Foi assim que, além de ser apoiado incondicionalmente por Joe Biden, Benjamin Netanyahu tornou-se também um cidadão honorário de Rondônia, mesmo que talvez nunca venha a saber disso. Mas quem realmente está preocupado com a situação é Lula, que precisa encontrar uma linha de atuação coerente nos cenários interno e externo. Em casa, até agora o saldo é positivo. O esforço diplomático para retirar cidadãos brasileiros da zona de conflito ganhou destaque, com mais de 1.100 repatriados até o momento e o prosseguimento das negociações com Israel e Egito para retirar brasileiros da Faixa de Gaza. O feito, aliás, contrasta com o descaso dispensado pelo governo Bolsonaro com os brasileiros que se encontravam na China em plena pandemia há três anos atrás. Porém, a força do discurso pró-Israel traz desgastes para o governo dentre e fora das fronteiras brasileiras. Em casa, sempre que a esquerda é bombardeada, Lula também acaba sendo atingido. Se inicialmente os jornalões tentaram associar a esquerda ao Hamas, agora o embaixador israelense no Brasil critica o PT por caracterizar a atuação de Israel em Gaza como genocida. E o conflito já produziu uma baixa no governo: o presidente da EBC Hélio Doyle foi demitido após chamar os apoiadores de Israel de “idiotas”. Mas, mesmo que os bombardeios indiscriminados de Israel confirmem a tese da limpeza étnica na região, a blindagem ocidental é tão forte que até dizer que houve um “ataque” num hospital em Gaza, virou tabu. É por essas e outras que, embora o Brasil tenha conseguido maioria no Conselho de Segurança da ONU para aprovar um cessar-fogo, o poder de veto dos Estados Unidos adiou a possibilidade de paz. Ainda assim, o movimento foi uma vitória moral e política da diplomacia brasileira e de Lula, que acabou sendo convidado pelo governo do Egito a participar da cúpula sobre a crise no Oriente Médio.

.Pizza de chuchu. Foi-se o tempo em que as CPIs aterrorizavam os bastidores da política. A CPI do 8 de janeiro encontrou o mesmo fim melancólico que as outras Comissões abertas nesta legislatura, terminando sem justificar sua existência. É verdade que ela nunca interessou ao governo e fazia parte de uma estratégia esdrúxula da oposição para culpar o próprio Planalto por um “autogolpe”, argumento que tinha poucas chances de pegar. É verdade também que o relatório aprovado pede o indiciamento de 61 pessoas, entre elas 31 militares, dos quais 12 são enquadrados como mentores da tentativa de golpe. Mas, na prática, a Comissão não trouxe nenhum fato novo e se limitou a ecoar as descobertas das investigações do STF e da PF. Tanto que além dos indiciamentos, o relatório propõe medidas inócuas como um dia em defesa da democracia, quando poderia, por exemplo, propor mudanças no mal interpretado artigo 142, sempre usado para justificar a possibilidade de intervenções militares. No meio do clima de “deixa pra lá” do fim dos trabalhos, passaram despercebidas as preocupações da relatora Eliziane Gama com a proximidade entre as polícias militares de estados e o bolsonarismo radical a participação das big techs nos atos golpistas. No fim das contas, o relatório deixa um constrangimento para as Forças Armadas, algo que não interessava ao Planalto neste momento, e dá mais um chute no cachorro morto chamado Jair Bolsonaro. O ex-capitão até se livrou de três ações por abuso econômico no TSE, mas sem a blindagem de um Auguro Aras, dificilmente escapará impune depois que o relatório chegar à PGR. Enquanto isso, resta aos seguidores do capitão agarrarem-se às pautas ideológicas, como o combate ao aborto e a exaltação de Israel, mesmo que lá o aborto seja legalizado.

.Enquanto seu lobo não vem. Se há uma mostra do poder de Arthur Lira, está no fato de que seu périplo pela Ásia simplesmente esvaziou a pauta parlamentar e nada de relevante foi discutido sem o presidente da Câmara. Por um lado, é bom para o Planalto, que vê esfriar a estratégia de Davi Alcolumbre e Rodrigo Pacheco de baterem no Judiciário para ganharem votos com os conservadores na disputa do Senado e do governo mineiro, respectivamente. Na queda de braços silenciosa nos corredores, Pacheco terminou sozinho com a bandeira anti-STF, cujo motor é a bancada ruralista, e Alcolumbre desistiu de segurar a sabatina dos indicados do STJ. Bom também para Fernando Haddad, que vai deixar para Lira o trabalho duro de convencer a própria bancada petista da proposta de déficit zero. Por outro lado, o marasmo do Congresso devolve os holofotes ao governo e aí a pedra do sapato é sempre a economia. A princípio, o orçamento do próximo ano prevê um significativo aumento para as áreas sociais, ainda que seja insuficiente diante do déficit social herdado dos últimos anos, segundo o Inesc. O orçamento para a reforma agrária, por exemplo, é o menor entre os governos petistas. O problema é que o governo gostaria de dar boas notícias e não há nada no horizonte que aponte para um fim de ano auspicioso. E aí, as férias de Lira também empacam propostas importantes como a reforma tributária. Outros pontos prioritários para o Planalto também não devem sair do papel tão cedo, como as mudanças na lei trabalhista, que continuam emperradas nas negociações entre plataformas de transporte e motoristas, especialmente no tema da previdência. E mesmo a menina dos olhos do governo neste primeiro ano, a política internacional, pode enfrentar mais turbulências além do conflito na Palestina. O país vai ter que repetir o sucesso como negociador que demonstrou no acordo entre governo e oposição na Venezuela para redefinir as bases financeiras de Itaipu com o Paraguai na próxima semana. Enquanto isso, no Equador, a volta da esquerda foi bloqueada pela eleição de um empresário neoliberal, e as eleições deste final de semana na Argentina podem ter resultados ainda mais desagradáveis. 


.Ponto Final: nossas recomendações.

Ponto é editado por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

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