O que dizem os mortos do caso Marielle

As queimas de arquivo e 'o Cara da Casa de Vidro'.

Leandro Demori

Arte: Aroeira

O Brasil amanheceu com uma bomba: Élcio Queiroz, o homem apontado como um dos assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes, fez um delação. Nela, entre outras coisas, confirma que foi ele o motorista do carro que interceptou Marielle e Anderson em 14 de março de 2018. No banco de trás estava Ronnie Lessa, o atirador.

A delação de Queiroz deve abrir um veio na investigação fundamental, certamente uma das mais complexas que já vi. E por quê? Porque ela foi contaminada, ao longo do percurso, por uma série de agentes que não desejam ver o seu fim.

O perigo, agora, é justamente o contrário: que muitos queiram ver o fim da investigação, encerrando a história no núcleo Queiroz/Lessa e encontrando um mandante sob medida. A esperança é que a Polícia Federal comandada por Flávio Dino dê segurança para que o assassinato não termine por isso mesmo.

Muita coisa deve vir à tona por parte dos vivos que restam neste caso. Talvez até outras delações, o que é muito incomum em casos de milícia, e que precisam de corroboração por provas.

Os mortos falam

Então vale revisitar o que dizem os mortos, as queimas de arquivo do caso. Como a de Edimilson Oliveira da Silva, conhecido como Macalé. Seu nome apareceu na delação de Queiroz.

Ele era sargento da Polícia Militar e foi executado em Bangu, na Zona Oeste do Rio, em 2021.

Queiroz disse também que foi Macalé quem apresentou o mandante da morte de Marielle a Ronnie Lessa, o atirador. Disse ainda que Macalé ajudou Lessa a monitorar a rotina da vereadora, seguindo Marielle meses antes do crime que aconteceu em março de 2018.

"Sim, da vigilância, o Edimilson Macalé esteve presente em todas, inclusive foi através do Edmilson que trouxe, vamos dizer, esse trabalho para eles. Essa missão para eles foi através do Macalé, que chegou até o Ronnie", disse Élcio de Queiroz em sua delação.

Também em 2021, meses antes, outro cadáver: o 2º sargento da Polícia Militar do Rio de Janeiro Luiz Carlos Felipe Martins, conhecido como Orelha. Ele foi assassinado a tiros na porta de casa na manhã de um sábado, em Realengo, na Zona Oeste do Rio. Detalhe: Orelha deveria ser preso naquele final de semana, mas sua prisão foi postergada para a segunda, e nunca aconteceu. Há histórias de que Orelha conversava sobre uma possível delação.

Orelha era ligado a Adriano da Nóbrega, o capitão homenageado por Flávio Bolsonaro na Alerj. Coincidência: Orelha também foi homenageado por Flávio com medalha da Alerj. Adriano, como sabemos, também foi morto.

Trecho da reportagem publicada por Sérgio Ramalho no Intercept poucos dias antes do assassinato de Orelha:

O suposto compadrio entre o chefe da milícia de matadores de aluguel e o presidente Bolsonaro, citado de forma lacônica por Tatiana da Nóbrega, também foi ressaltado em outra conversa interceptada. Dessa vez, em 15 de fevereiro de 2020, seis dias após a morte do ex-capitão Adriano. No diálogo, classificado pela polícia como de média relevância, Luiz Carlos Felipe Martins, o Orelha, conta que “Adriano dizia que se fodia por ser amigo do Presidente da República”. De acordo com o MP, Orelha atuava como um dos homens de confiança do miliciano. Após a a morte de Adriano, foi Orelha quem tratou da venda de cabeças de gado do espólio do ex-capitão. Assim como Tatiana e o vereador Gilsinho, Orelha também teve o monitoramento de suas comunicações suspenso dias depois de mencionar o presidente ao telefone. A assessoria da Presidência da República não comentou o teor da gravação.


Há outros casos: Carlos Alexandre Pereira Maria, colaborador parlamentar do vereador Marcello Siciliano, do PHS, e o subtenente reformado da PM Anderson Claudio da Silva. Pereira, conhecido como “Alexandre Cabeça”, e Silva foram mortos a tiros ainda em 2018. Ambos tinham relação com as milícias. Siciliano chegou a ser apontado como mandante do crime, mas a testemunha, depois, disse estar mentindo.

As relações dos cadáveres eram evidentes e levam a uma conclusão: a necessidade de investigação da família Bolsonaro com o grupo.

Também do Sérgio Ramalho no Intercept:

Diálogos transcritos de grampos telefônicos sugerem que o presidente Jair Bolsonaro foi contactado por integrantes da rede de proteção do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, chefe da milícia Escritório do Crime. As conversas fazem parte de um relatório da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Polícia Civil do Rio elaborado a partir das quebras de sigilo telefônico e telemático de suspeitos de ajudar o miliciano nos 383 dias em que circulou foragido pelo país.

Logo após a morte do miliciano, cúmplices de Adriano da Nóbrega fizeram contato com “Jair”, “HNI (PRESIDENTE)” e “cara da casa de vidro”. Para fontes do Ministério Público do Rio de Janeiro ouvidos na condição de anonimato, o conjunto de circunstâncias permite concluir que os nomes são referências ao presidente Jair Bolsonaro. “O cara da casa de vidro” seria uma referência aos palácios do Planalto, sede do Executivo federal, e da Alvorada, a residência oficial do presidente, ambos com fachada inteiramente de vidro.

Eu escrevi um livro de leitura muito breve sobre o caso. Leia para entender por que muita gente deseja o “fim” do caso Marielle. É preciso estar atento. Exclusivo: >> "Máfia e Milícia – Conexão Rio: quando os italianos cruzaram o Atlântico".

A Grande Guerra / Leandro Demori

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