Um estranho equilíbrio

Olá, o governo não passou no primeiro teste dentro do Congresso. Bolsonaro acordou com a Polícia Federal à porta. E, com a taxa de juros nas alturas, só quem saiu ganhando essa semana foram os banqueiros.

Google Boy

Pairava a dúvida se o governo teria ou não maioria para governar. A retirada de pauta do PL das Fake News (PL 2630) acendeu o sinal de alerta, pois os esforços de Arthur Lira para entregar uma vitória no Congresso deram com os burros n’água. Mesmo que o projeto de regulamentação da internet tenha recebido o apoio dos tradicionais grupos de comunicação, como a Rede Globo, corporações internacionais como Google, Meta, Twitter e TikTok agiram sistematicamente para derrubá-lo, lançando manifestos, vetando postagens favoráveis e disseminando propagandas contrárias. Tudo isso com um descarado abuso de poder econômico. O clima só confirma que a internet virou mesmo terra de ninguém, ou melhor, de poucos. Google e companhia venceram a batalha com jogo sujo, fazendo prevalecer a imagem de que se tratava de uma tentativa do governo controlar a internet, visão que foi reforçada pela retirada da medida prevista no texto original do PL que criaria uma entidade autônoma reguladora. Mas a derrota do governo só foi possível porque a sacudida das Big Techs animou bolsonaristas, evangélicos e tucanos a fazerem a festa. Em Porto Alegre, houve até protesto no tradicional ponto de encontro bolsonarista. Antes de sepultar o projeto, a bancada evangélica ainda tentou criar um dispositivo para dar imunidade a lideranças religiosas que ofendam a população LGBTQIA+ na internet. Mas a pressão de Silas Malafaia e outros pastores mudou o voto dos deputados do Republicanos. E até o PSDB, que era um dos formuladores do PL 2630, mudou de lado. Prevendo o pior, Arthur Lira retirou a proposta da pauta, e agora ninguém sabe qual será seu futuro. O governo ainda sofreu mais uma derrota com a queda dos vetos no Marco do Saneamento, para a qual contou a infidelidade do MDB, União Brasil e PSD. Arthur Lira só não saiu mais chamuscado porque manobrou para a base governista ficar com a maioria na CPMI do 8 de janeiro e ainda deve mandar para a Comissão de Ética a representação contra oito deputados bolsonaristas. Mas, pior, a reviravolta levanta dúvidas sobre a possibilidade de aprovação de outras matérias importantes para o governo, como o novo arcabouço fiscal e a reforma tributária, e aumenta o preço da governabilidade na base de um velho indexador: a liberação de emendas.

O fio do novelo

Se no Congresso, o terceiro turno contra o bolsonarismo bloqueou o Planalto, foi justamente do lado de lá que vieram as melhores notícias para um governo que ainda não deslanchou na economia e nem nas políticas estratégicas. A operação da Polícia Federal para apurar a falsificação de dados da vacinação não apenas atingiu em cheio o núcleo mais próximo de Bolsonaro - prendendo dois seguranças pessoais e o seu braço direito, o tenente-coronel Mauro Cid Barbosa - como parece ter encontrado um fio para desatar o gigantesco novelo de operações ilegais do governo anterior. Cid, por exemplo, está envolvido com esquemas que vão desde a articulação de atos contra o Supremo, passando pelos saques para caixa 2 de Michelle, até o caso das joias sauditas. Segundo a PF, o mesmo esquema criminoso era parte do Gabinete do Ódio, com ataques nas redes sociais às instituições, e tinha relações com as milícias cariocas. Já o coronel do Exército Marcelo Costa Câmara era o responsável pela Abin paralela criada para proteger a família Bolsonaro e atacar inimigos políticos. Os rastros da quadrilha chegam até o assassinato de Marielle Franco. Um dos presos é o militar da reserva e ex-candidato a deputado estadual, Ailton Barros (PL-RJ), que concorria com o título de “O 01 de Bolsonaro”. Em trocas de mensagens, Barros afirma saber quem mandou matar a vereadora. Cid e Barros teriam ainda discutido um Golpe de Estado depois da derrota nas eleições. Com a ação da PF, já são pelo menos cinco frentes do cerco a Bolsonaro, incluindo STF, TSE e justiça comum, sem contar a investigação sobre a rachadinha no gabinete de Carluxo. O isolamento de Bolsonaro só não é maior graças à fidelidade irrestrita do agronegócio, mas até nas casernas, já há sinais de reconciliação com Lula, deixando sua criatura à própria sorte. Com tudo isso, resta ao capitão fazer o que ele faz de melhor - pagar de vítima - enquanto outros nomes da direita já se preparam para substituí-lo.

Último bolsonarista livre

Lula e Fernando Haddad ficariam felizes mesmo se a carteirinha de vacinação de Campos Neto tivesse sido encontrada pela PF. Livre, leve e solto, o presidente do BC manteve a sua convicção e a taxa de juros nas alturas em mais uma demonstração de que sua decisão é política e insensível à crise econômica. Graças à política do BC, em apenas um ano, o salário médio dos trabalhadores caiu 6,9%, enquanto os ganhos de acionistas de empresas aumentaram 23,8%, segundo dados da Oxfam. É quase um tira-de-lá-põe-aqui, pois o lucro dos acionistas alcançou US$ 34 bilhões, quase o mesmo montante que os trabalhadores do país tiveram em cortes em seus salários. Com juros altos, ninguém pensa em tomar crédito para investimentos, principalmente se a taxa Selic garante lucros maiores para especuladores sem produzir nada, e o processo de desindustrialização avança a ponto de ameaçar qualquer tentativa de inserção econômica do país no cenário mundial, alerta o economista José Luis Oreiro. Com a pedra do BC no sapato, sobraram anúncios magros do presidente nos atos do 1.º de maio. O aumento do salário mínimo ficou abaixo do esperado pelas centrais sindicais, a ampliação da faixa de isenção do imposto de renda só valerá a partir do ano que vem e mudanças na reforma trabalhista dependem da frágil articulação do governo no Congresso. Pior mesmo só na Argentina, onde a crise econômica obrigou o presidente Alberto Fernandez a vir aqui pedir ajudar do Brasil para tirar a faca do pescoço.

.Ponto Final: nossas recomendações.

Ponto é editado por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

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