Uma roupa que não nos serve mais

Olá, Lula está em visita à China e pensa no futuro, mas o peso do passado impede o Brasil de avançar. Leia esta edição ao som de Belchior.

A esperança. Duas boas notícias trouxeram alento ao governo nos últimos dias. A primeira é a viagem de Lula à China, que saiu mais rápido do que o inicialmente esperado. Vale lembrar que o Brasil corre atrás do prejuízo, pois diferentemente de vinte e um de nossos vizinhos, ainda não ingressamos no maior projeto econômico global, a Nova Rota da Seda. E dentro do governo ainda há resistências a uma adesão formal. Apesar disso, Lula leva na mala a intenção de estreitar relações econômicas e políticas com a potência asiática. Estão em pauta grandes projetos de infraestrutura, como ferrovias e hidrelétricas, instalação de uma planta para a produção de semicondutores no Brasil, bem como o aumento das exportações de produtos agrícolas, minerais e aviões. A visita também sinaliza um afastamento do Brasil em relação aos Estados Unidos. Afinal, o estreitamento das relações com a China pode contribuir para enfraquecer o dólar no comércio internacional, e, de olho na crise da Argentina, Lula também aproveitou a posse de Dilma no Novo Banco de Desenvolvimento para criticar o FMI. A viagem para o oriente coincidiu com uma segunda boa notícia: o desempenho econômico brasileiro está mostrando que Lula tem razão nas suas críticas à política austericida do Banco Central. É que a inflação recuou mais do que o esperado pelo mercado e o dólar caiu abaixo de R$ 5,00 pela primeira vez em mais de dois meses. Ao mesmo tempo, a alta de juros produziu uma fuga de investimentos no primeiro trimestre do ano. Ou seja, todos os sinais mostram que a política econômica de Campos Neto está errada, causando uma crise de crédito e segurando a liquidez, e a indústria já tomou para si a causa de Lula. Frente ao evidente desastre, alguns aliados avaliam que um pedido de demissão de Campos Neto seria uma saída honrosa, e Haddad já estaria buscando um nome mais alinhado ao governo para a vaga do futuro ex-presidente do BC.

O medo. O clima político não se submete a calendários eleitorais. Daí entende-se porque quase metade dos brasileiros acham que o governo Lula fez menos do que deveria nos seus cem primeiros dias. O primeiro problema é a dificuldade em criar o novo. Até agora, Lula apostou em reciclar antigos programas de governo: Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos… e logo à frente deve sair do papel um novo PAC. A opção segue o caminho de eficácia comprovada e de reconstrução pós-desastre. Mas também traz um desagradável cheiro de naftalina e pode não estar à altura dos problemas presentes. Este é o caso do Bolsa Família, cujo número de beneficiários em metade dos estados do país é maior que o número de empregados com carteira assinada. Ou seja, a política pública não faz nem cócegas na informalidade e precariedade do trabalho. O segundo problema é que o modelo econômico segue beneficiando o agronegócio e a mineração. As parcerias com a China, por exemplo, tendem a fortalecer ainda mais estes setores. E dois cartões de visitas de Lula nas relações internacionais, a questão indígena e a ambiental, sofrem com isso. Mesmo com a revogação de decretos que “passaram a boiada”, combate ao garimpo e à invasão de terras indígenas, o Instituto Talanoa avalia que apenas 5% das intenções do governo na área ambiental foram atingidas. Resultado: a área desmatada no cerrado e na Amazônia este ano já corresponde a quase duas vezes a cidade do Rio de Janeiro. O mesmo ocorre com o garimpo em terras Yanomamis. Apesar das ações de repressão do governo na região, foram identificados quase cem novos garimpos ilegais desde fevereiro. O terceiro problema é o medo, o pior inimigo do espírito progressista. Na semana passada o governo suspendeu a implementação do novo ensino médio para abrir o debate sobre o tema. De lá para cá o que aconteceu? Só se fala da possibilidade de novos ataques dentro das escolas. E não importa se o medo é maior do que a ameaça real, todos querem uma solução mágica e, de preferência, repressiva para o problema.

Ser ou não ser? Se por um lado, o Estado foi completamente sucateado pelo bolsonarismo, por outro, ter uma base no Congresso cuja fidelidade depende de cargos também contribui para a lentidão das mudanças. Em Alagoas, por exemplo, o MST precisou ocupar o INCRA para que o superintendente bolsonarista fosse exonerado. A disputa interna do União Brasil mostra que nem a política do toma-lá-dá-cá é simples para este governo: O União Brasil é formado pela fusão do DEM (antigo PFL) e do PSL, legenda que elegeu Bolsonaro, e possui os ministérios das Comunicações e do Turismo. Por conta da divisão de cargos do partido no governo bolsonarista do Rio, a ministra do Turismo Daniela Carneiro quer deixar a legenda. E o presidente do União Brasil, Luciano Bivar, já avisou que se isso acontecer, ela deve entregar o ministério. O problema é que a indicação não foi propriamente feita pelo partido, mas pelo senador Davi Alcolumbre, desconhecido na política até ser alçado à presidência do Senado pelo bolsonarismo, e que está à frente da poderosa Comissão de Constituição e Justiça. Se mantiver a ministra, Lula perde o apoio do União Brasil. Mas, mesmo que a demita, não recebe nenhuma garantia da fidelidade do partido. A dificuldade em saber quem é oposição e quem é governo, afinal de contas, só não é um problema para o centrão, que vive justamente desta ambiguidade. O novo bloco de Arthur Lira nasceu como uma resposta ao centrão governista articulado por Renan Calheiros, mas apesar do tom de ameaça, o novo bloco jura de pés juntos que é governista e, na prática, até serviu para isolar o bolsonarismo raiz na Câmara.

Ponto Final: nossas recomendações

Ponto é editado por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

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