Tudo 茅 fruto de uma mesma ideologia que governa para poucos e despreza pobres, pretos, mulheres e popula莽茫o LGBTQIA+
M么nica Francisco* Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)
N茫o bastasse essa (des)orienta莽茫o perversa do uso dos recursos p煤blicos, ainda lidamos com os reflexos de reformas trabalhistas e outros retrocessos - Nelson Almeida / AFP 馃憜
As condi莽玫es de emprego e renda da popula莽茫o pioraram muito nos 煤ltimos anos. A precariedade no trabalho reflete o desmonte de pol铆ticas p煤blicas promovido por governos que preferem direcionar os recursos para programas de seguran莽a caros e p铆fios, que matam negros nas favelas, em vez de investir em projetos de est铆mulo 脿 gera莽茫o de vagas capazes de beneficiar fam铆lias dentro e fora das periferias.
N茫o bastasse essa (des)orienta莽茫o perversa do uso dos recursos p煤blicos, ainda lidamos com os reflexos de reformas trabalhistas e outros retrocessos que retiram e enfraquecem direitos, jogando milhares de trabalhadores na mis茅ria.
Mas cada trabalhador tem um nome e uma vida por que resistir.
Eu me chamo M么nica Santos Francisco e sou uma mulher negra, nascida e criada no Morro do Borel, na Zona Norte do Rio. Eu comecei a trabalhar aos 14 anos numa f谩brica de tecidos. A partir da铆, em nome da sobreviv锚ncia, passei por diversos postos de trabalho precarizados, reconhecidos como subempregos, mas que, at茅 hoje, costumam ser ocupados por mulheres negras, pobres e faveladas como eu. Fui empregada dom茅stica, auxiliar de servi莽os gerais, atendente em lanchonete, oper谩ria em uma f谩brica de prata, empacotadora de supermercado. Com aquela plaquinha “compro ouro”, fiquei muitas horas na Pra莽a Saens Pe帽a.
Aos 38 anos, fui aprovada por cotas no vestibular e, hoje, sou cientista social formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ao longo dessa trajet贸ria, eu me envolvi com lutas coletivas e me tornei uma defensora dos direitos humanos. Atualmente, estou deputada estadual e entrei para a Hist贸ria como a primeira mulher negra presidente da Comiss茫o de Trabalho da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Minha experi锚ncia e meu papel institucional me qualificam para avaliar a situa莽茫o do trabalho e da vida do trabalhador neste pa铆s. Salta aos olhos a quantidade cada vez maior de pessoas em trabalhos desprotegidos - sem carteira assinada, sem f茅rias, sem aposentadoria, sem direitos.
A informalidade engole a vida dos brasileiros, principalmente os pobres, pretos e favelados.
O estado do Rio tem 1,3 milh茫o de trabalhadores desempregados, o que equivale a uma taxa de desocupa莽茫o de 14,2%. Desse total, a maior parte 茅 negra: 63,5% (816 mil), segundo dados do terceiro trimestre de 2021 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic铆lios Cont铆nua (Pnad-Cont铆nua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat铆stica (IBGE). Se incluirmos os trabalhadores desalentados, subocupados (por insufici锚ncia de horas) e os que est茫o fora da for莽a de trabalho, a taxa de desemprego no estado do Rio sobe de 14,2% para 22,3%, e o total de trabalhadores desempregados chega a 2 milh玫es.
Mais uma vez, os negros s茫o os mais afetados: 1,3 milh茫o, enquanto os brancos representam 700 mil.
A mesma pesquisa mostra que 3 milh玫es de pessoas tentam se sustentar em trabalhos informais e prec谩rios no territ贸rio fluminense. Isso equivale a uma massa de 39% dos 7,8 milh玫es de trabalhadores ocupados no estado. A mis茅ria assombra e amea莽a ainda mais as mulheres negras. Elas correspondem a 45% da popula莽茫o do Rio em trabalhos precarizados, enquanto as mulheres brancas representam 33%. Homens negros nesta situa莽茫o equivalem a 39%, e brancos, 33%.
O Brasil verde e amarelo ostenta, mas 茅 decadente. A renda m茅dia do trabalhador brasileiro caiu 9,7% no trimestre encerrado em janeiro de 2022 em rela莽茫o ao mesmo per铆odo de 2021, ficando em R$ 2.489. Em rela莽茫o ao trimestre encerrado em outubro do ano passado, o valor teve queda de 1,1%, segundo a Pnad Cont铆nua.
O endividamento atinge 77,7% das fam铆lias brasileiras, maior patamar desde 2010, segundo a Confedera莽茫o Nacional do Com茅rcio de Bens, Servi莽os e Turismo. O sal谩rio dos brasileiros n茫o acompanha a infla莽茫o de 21% acumulada nos 煤ltimos tr锚s anos. Apesar disso, desde 2019, o trabalhador fluminense est谩 sem reajuste do piso salarial. E o governo de Cl谩udio Castro n茫o apresenta um plano de combate ao desemprego e nem proposta de aumento do piso regional.
Como se n茫o bastasse, a cesta b谩sica ficou 33% mais cara desde o in铆cio da gest茫o Bolsonaro e, sozinha, equivale a 83% do poder de compra real do sal谩rio m铆nimo regional. No mesmo per铆odo, o g谩s de cozinha subiu 110,1%. A vida est谩 dif铆cil e o presidente do pa铆s e o governador Cl谩udio Castro (PL) se preocupam mais em criar narrativas do que em matar a fome da popula莽茫o.
Nada disso ocorre ao acaso. Tudo 茅 fruto de uma mesma ideologia que governa para poucos e despreza pobres, pretos, mulheres, popula莽茫o LGBTQIA+ e povos origin谩rios. Precisamos fazer uma transi莽茫o de uma vis茫o de mundo excludente para outra que, embora imperfeita, defende direitos, renda, trabalho, sa煤de, educa莽茫o, moradia e alimenta莽茫o para todos. No m锚s do trabalhador, vamos nos unir e fazer despertar quem ainda segue do lado errado. A hora 茅 agora.
*M么nica Francisco 茅 deputada estadual pelo PSOL e presidente da Comiss茫o de Trabalho, Legisla莽茫o Social e Seguridade Social da Alerj.
*Este 茅 um artigo de opini茫o. A vis茫o da autora n茫o necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato e nem do nosso blog Junior Pentecoste.
Fonte: BdF Rio de Janeiro
Edi莽茫o: Mariana Pitasse
