Deputado cearense Robério Monteiro citado nas investigações da PF, em relação aos desvios de emendas parlamentares, no âmbito da operação Fake Road autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF.
'Obras fantasmas' com dinheiro do orçamento secreto: PF investiga desvio de verbas no Nordeste
Operação apura esquema com emendas parlamentares. Reportagem percorreu três estados e encontrou cidades sem asfalto, construtoras que enganaram a população e trabalhadores que levaram calote.
- VÍDEO/REPORTAGEM: Fantástico percorre 2.500 quilômetros em 3 estados para descobrir o destino do dinheiro das emendas parlamentares
A reportagem encontrou obras fantasmas, construtoras que enganaram a população e trabalhadores que levaram calote.
A PF conseguiu rastrear o envio de milhões de reais em emendas de Mendonça Júnior para ao menos três municípios da Bahia. Em Boquira, foram R$ 4 milhões. Em Ibipitanga, quase R$ 13 milhões. E em Paratinga, pouco mais de R$ 8 milhões.
| Félix Mendonça Júnior (PDT-BA) — Foto: Reprodução/TV Globo |
Asfalto fantasma na Bahia
O Fantástico acompanha a Operação Overclean desde a primeira fase, em dezembro de 2024. Na época, o programa esteve em Campo Formoso, na Bahia, e mostrou a espera pelo asfaltamento de uma estrada. Um ano depois, o asfalto ainda não chegou.
Parte do dinheiro para o asfalto fantasma veio de uma emenda de 2021 dentro do orçamento secreto, que não identifica o autor do repasse.
O projeto virou um convênio entre a prefeitura de Campo Formoso e a empresa estatal Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales dos São Francisco e Parnaíba).
A Codevasf informou que R$ 8 milhões corresponderiam à contrapartida da prefeitura. E que, ao realizar ação de fiscalização, identificou inconsistências que comprometem a continuidade da execução.
O prefeito de Campo Formoso é Elmo Nascimento (UNIÃO), irmão do deputado federal Elmar Nascimento (UNIÃO-BA).
O superintendente regional da Codevasf na época era Miled Cussa Filho, indicado por Elmar para o cargo. Miled disse que alertou a prefeitura e os órgãos de controle sobre as irregularidades e que foi demitido da Codevasf por colaborar com as investigações.
"Encaminhei para o Ministério Público Federal, CGU [Controladoria-Geral da União], relatando todas as irregularidades dos convênios e aí eu fui demitido", disse Miled.
Investigação em Alagoas
As investigações também chegaram a Rio Largo (AL), vizinha a Maceió. A cidade tem um histórico de problemas com corrupção, e prefeitos já foram afastados e até presos.
Nos últimos seis anos, o município recebeu quase R$ 100 milhões em emendas, principalmente do orçamento secreto. Mas os moradores convivem com problemas crônicos, moradias precárias, falta de saneamento básico e obras inacabadas.
Só o Fundo Municipal de Saúde de Rio Largo recebeu quase R$ 64 milhões em emendas. Ainda assim, as unidades básicas ficaram fechadas durante quase um mês na virada de ano.
Um vídeo publicado em dezembro de 2024 pelo então prefeito Gilberto Gonçalves (PP) mostra obras na via conhecida como Estrada das Canas. O dinheiro veio de uma emenda de quase R$ 6 milhões pelo deputado Arthur Lira (PP-AL).
A pavimentação foi feita, mas o asfalto afundou em vários pontos da via.
| Pavimentação de estrada em Rio Largo (AL) deixou vários pontos da via afundados — Foto: Reprodução/TV Globo |
Arthur Lira disse que falta fazer a remoção de postas de energia e que houve um atraso em uma desapropriação de área privada. Segundo ele, a prefeitura tem mais de R$ 4 milhões reservados para o serviço.
Gilberto Gonçalves foi preso em 2022 na Operação Beco da Pecúnia, que identificou desvios em contratos da prefeitura. Na época, o Fantástico mostrou que a propina era distribuída em um beco próximo à prefeitura. Gilberto reassumiu o cargo e terminou o mandato.
A população de Estrela de Alagoas (AL) também espera pelo asfalto. O Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS), anunciou o asfaltamento de duas estradas rurais a um custo total de R$ 25 milhões.
Em uma das vias, só foi feita a terraplanagem. Em outra, o asfalto chegou apenas em um trecho. As obras pararam e nunca mais voltaram após as eleições de 2024.
A cidade era governada por Aldo Lira (PP), que aparece em um vídeo agradecendo a Arthur Lira pela obra.
Arthur Lira (PP-AL) disse que a responsabilidade sobre a obra é do DNOCS.
| Arthur Lira (PP-AL) — Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados |
Nas duas obras paradas, o órgão contratou a empreiteira Construmaster, que mudou de nome e hoje se chama Vieira Infraestrutura.
A empresa também é alvo da operação Fake Road (Estrada Falsa). A PF e a CGU encontraram indícios de fraudes, superfaturamento e desvios, além de serviços mal executados no Ceará e no Rio Grande do Norte. O prejuízo estimado é de R$ 18 milhões.
O autor dessas emendas é o deputado federal Robério Monteiro (PDT-CE). Segundo a PF, ele mandou o dinheiro para as cidades cearenses de Itarema, que tem seu filho como prefeito, e Acaraú, onde sua esposa é a prefeita.
| Robério Monteiro (PDT-CE) repassou emendas para cidades que têm o filho e a esposa como prefeitas — Foto: Reprodução/TV Globo |
Ao autorizar a operação Fake Road, o ministro Flávio Dino, do STF, afirmou que, "foi identificado o uso de fotos falsas para comprovar a realização das obras" e que a ação "é uma grave irregularidade que compromete a transparência e a confiabilidade do processo de fiscalização".
A decisão menciona informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf): o dono da Construmaster fez transferências financeiras para um irmão do deputado Robério Monteiro, e parte do dinheiro foi repassada ao deputado.
O deputado não foi alvo da operação. Ele disse que a obra é de responsabilidade exclusiva do DNOCS e que não há emenda dele nesse projeto, e sim de recurso de uma comissão do Senado, aprovado por vários parlamentares e dentro da legalidade.
Sobre a menção ao seu irmão, Robério disse que a transferência diz respeito a relações estritamente comerciais.
A Construmaster recebeu R$ 114 milhões em verbas federais entre 2022 e 2025, segundo o Portal da Transparência. Deste valor, foram mais de R$ 36 milhões em emendas, a maior parte do orçamento secreto.
Falta de transparência
| Polícia Federal investiga desvio de emendas parlamentares no Nordeste — Foto: Reprodução/TV Globo |
Desde 2020, o uso do orçamento secreto consumiu R$ 38 bilhões dos cofres públicos. O STF proibiu esse instrumento no fim de 2020 devido à falta de transparência e de critérios para o uso do recurso.
Com a proibição, parlamentares passaram a turbinar as emendas ligadas às comissões da Câmara e do Senado, que também são criticadas pela falta de transparência. Essas emendas chegaram a R$ 8,6 bilhões em 2025.
Com as investigações, a PF quer abrir a caixa preta do orçamento secreto. No centro das operações, estão o DNOCS e a Codevasf, que enfrentam o loteamento de cargos de direção entregues pelo governo federal a políticos em troca de apoio no Congresso.
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